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NOSSA FESTA (*)

Não era fácil encontrar alguém, ainda mais tão pequeno - 4 ou 5 anos, quando muito -, no meio da multidão


Solimar Soares da Silva

(Membro da Academia Cachoeirense de Letras)

E-mail: [email protected]

 

Era só descuidar, um segundo, e pronto. "Cadê esse menino, meu Deus!" E minha mãe convocava a família inteira pra me procurar. "Vai um pra cada lado!" - ordenava, aos prantos, quase arrancando os cabelos. (Nessa época, não havia sequestros, de modo que era uma preocupação a menos).

Não era fácil encontrar alguém, ainda mais tão pequeno - 4 ou 5 anos, quando muito -, no meio da multidão.

Meia hora depois, ah! que alívio! Acaba o desespero. Lá estava eu, marchando, feliz da vida, atrás da Banda de Música. (Qualquer dia desses, num Dia de Cachoeiro, como aquele, eu viro criança, e saio atrás da Lira de Ouro ou da 26 de Julho, marchando, feliz da vida, pela rua afora...).

Eu tinha a impressão de que Newton Braga tinha criado esse dia só pra mim. Ignorava que ele pretendesse homenagear São Pedro, o padroeiro da cidade. Nem me passava pela cabeça que sua intenção era a de promover reencontros de cachoeirenses presentes e ausentes.

Na véspera, eu nem conseguia dormir direito. Já levantava da cama me enfiando no uniforme de parada: calça curta azul marinho (calça comprida só no ginásio), sapato preto e camisa branca (ninguém dizia que era feita de saco de trigo, alvejado). O emblema do colégio era bordado em ponto cheio, no bolso, com linha azul: "QA" - Quintiliano de Azevedo. Dessa mesma cor era o casquete - um boné, sem aba, meio parecido com um barquinho de papel, com bordas bem altas, na parte da frente, que iam afinando na direção da nuca. Feita do mesmo pano era a gravata, que não passava de quinze, vinte centímetros de comprimento, por seis ou sete de largura. No casquete as listras brancas, fininhas, eram verticais; na gravata, horizontais: primeiro ano, uma listra; segundo ano, duas listras... Até quatro. (Aí a gente terminava o curso primário e fazia um exame de admissão ao ginásio).

Festa sem algodão doce não tinha graça. O carrinho dele ficava no final do calçadão da Praça Jerônimo Monteiro, perto dos Correios. E a gente saía lambuzando a cara pela rua. A população inteira e mais os visitantes invadiam as calçadas, do Guandu a Baiminas; da Ilha da Luz ao Coronel Borges, durante todo o dia, num vaivém interminável. Vez por outra, a gente dava de cara com um ex-colega de colégio, um amigo de infância, que não via há muito tempo. Era gostoso aquele reencontro. E nossa memória funcionando como se fosse máquina fotográfica. Em segundos, as imagens, coloridas, se alternavam, nítidas, como se os fatos ocorridos há dezenas de anos se passassem naquele exato momento.

Durante muitos anos, várias tradições foram mantidas. Como Newton planejou.

Sempre havia um mais assustado: "Tapem os ouvidos, tapem os ouvidos!..." Três explosões no espaço. Sobe mais um foguete... Um parecendo uma cachoeira...; outro fazia lembrar um colar cintilante. Outro, mais outro.... Puuum! Era o arremate da Festa, que durava, no mínimo, uma semana. À meia-noite em ponto, todas as luzes se apagavam. No pátio da Matriz Velha, o fogueteiro Escancalha, que Muqui nos emprestava, todo ano, riscava o fósforo que desencadeava uma série de explosões e de feixes de luz. Agora, luz, muita luz. No final, pequena cortina se abria e, então, aparecia, resplandecente, a imagem de São Pedro, nosso padroeiro. A multidão aplaudia.

Lá na Ilha da Luz, no dia 28, à noite, o marulhar das águas do Itapemirim se juntava ao som, meio surdo, de um tambor: era o Caxumbu. À frente, o mestre Zacarias, um catedrático na arte de fazer marcação de ritmos, de danças e de cânticos de origem africana. Foi ele, sem dúvida, a última flor do nosso folclore. (Se ninguém acudir, depressa, nossas tradições vão, aos poucos, caindo no esquecimento).

Disso não tenho dúvida: Dia de Cachoeiro sem folguedo popular, sem muita gente invadindo ruas e calçadas, sem algodão doce, sem folclore, sem encontros e reencontros, é a mesma coisa que criança sem sorriso, que flor sem perfume, que céu sem estrelas. Não tem graça nenhuma.

 

(*) Do livro "Eu e meu umbigo", pág. 173 (adaptado)


Opinião do leitor

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