As pessoas não morrem... - Jornal Fato
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As pessoas não morrem...

Temos uma certeza: somos semelhantes, porém diferentes


Existem pessoas diferentes. Na verdade, a beleza dos seres humanos está na diversidade. Em suas diferenças. Temos uma certeza: somos semelhantes, porém diferentes. Na interação das diferentes cores de pele; na fusão das aptidões físicas e intelectuais; na admiração dos vários graus de inteligência; na complexidade e intensidade dos desejos; na observação das entonações de vozes; na capacidade de se emocionar (chorar ou sorrir); na maneira que nos relacionamos e nos espantamos com as coisas do mundo. Nesses vários aspectos produzimos nossa identidade e individualidade, independente do tempo que vivemos. Aceitar as diferenças, e os diferentes, nos torna verdadeiramente humanos. Dia desses, proveniente de hospital psiquiátrico, internou-se na enfermaria da Santa Casa de Cachoeiro, paciente sem senso critico (deficiente mental). Apresentava obstrução intestinal e uma bolsa de colostomia foi necessária. Seu comportamento - ora agressivo, ora passivo, provavelmente pela mudança de ambiente, foi dando lugar a uma pequena verbalização: "Papá". Algo de significado dúbio: instinto humano de saciar a fome ou solicitação de cuidado fraternal? A verbalização modificou os cuidadores na enfermaria - médicos, enfermagem, nutricionista, assistente social, fisioterapeuta... Todos nós, ou cada um de nós, influencia, de uma maneira ou outra, boa ou ruim, outra pessoa. Nunca estamos isolados, nunca nos encontramos totalmente sozinhos. Sempre influenciamos ou sofremos a influência de alguém. Por mais sutil que seja a modificação, a vida do outro pode ser alterada por um gesto, uma palavra, um sorriso ou uma agressão. Assim, dependemos uns dos outros, mesmo quando não existem laços sanguíneos. As afinidades ou rejeições aparecem onde menos esperamos. Algumas espontâneas, outras desejadas. Em forma amorosa ou rancorosa.

O ser humano sempre influenciou uns aos outros. Pela força ou convencimento. Na transferência oral das informações, nos grandes feitos da humanidade, nas lembranças de grandes guerreiros, generais, profetas formaram-se mitos, permanecem na atualidade. Com a transmissão de imagens e vozes de rádio, televisão e cinema, com a imagem instantânea, criam-se estrelas, astros, facilmente. Muitos, rapidamente, se desfazem. Quando crescemos com eles, vivenciando seus feitos, tornam-se duradouros, morremos com eles. Às vezes, as pessoas que nos marcam são amizades antigas, do tempo de infância, adolescência, juventude, de Escola, de Faculdade... Amizades simples, mas verdadeiras. Um deles nos deixou há uma semana: o médico urologista José Malbar da Silva, atuava no Crefes de Vila Velha e na Santa Casa de Vitória. Meigo, companheiro e agregador. Os colegas da Faculdade de Medicina, Turma de Formandos de 1981, da Emescam, se reuniam pelo prazer de sua companhia. A notícia do seu falecimento recuperou a memória afetiva. Será assim imortalizado. Viverá em minhas lembranças. Viverá como vive as palavras de Guimarães Rosa: "As pessoas não morrem, ficam encantadas."

 

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Sergio Damião Médico e cronista

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