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Sobre viver e planejar

Nada, a não ser os acidentes e incidentes, que esses não tem jeito, o nome já diz, engulo a contragosto


O imprevisível e o imponderável sempre me assustaram. E continuam assustando. Não vivi aventuras comuns aos amigos da minha adolescência e juventude por pura covardia.  Embora não seja exatamente a pessoa mais organizada que conheço, muito pelo contrário, gosto de me preparar até mesmo para um inocente e despretensioso happy hour.

Nada, a não ser os acidentes e incidentes, que esses não tem jeito, o nome já diz, engulo a contragosto. Se planejar me deixa ansiosa, não fazê-lo me deixa desesperada. É por isso que nunca aceitei convite de amigos para aventuras em lugares desconhecidos para acampar, por exemplo. Muita coisa estranha poderia acontecer e eu certamente não estaria preparada para nenhuma delas. Gosto da certeza e do conforto de um quarto de hotel aconchegante, com roupas de cama impecavelmente limpas.

Então, me privo do que poderia ser uma ótima experiência simplesmente pelo medo do inusitado. Não lido bem com ele, embora saiba que ainda vou ser atropelada muitas vezes pelas intempéries da vida à minha revelia. Mas esses percalços só provam que estou viva, e portanto no lucro. É por isso que histórias como a que li recentemente, de um professor de ciências sociais e mestre em comunicação, que virou morador de rua, me causa desconforto.

Ele relata que sofre de depressão, mas quando quer chorar, faz isso escondido, porque na rua isso é visto como fraqueza e ele seria roubado. Então, ele tem que fazer cara de mau porque o lugar é uma selva. Esta e outras histórias de abandono e vulnerabilidade social realmente me causam grande tristeza, mesmo que eu sempre me lembre de um versículo do qual o meu pai gosta muito: "Fui moço e agora sou velho e nunca vi desamparado o justo (justificado pelo sangue de Jesus) nem a sua descendência a mendigar o pão". (Salmo 37:25).

Pela fé desprovida da arrogância que separa e discrimina, creio sempre que pela misericórdia de Deus não passarei por situações tão extremas, mas as carências me afligem demais.  Quero a certeza do afeto e alegria abundantes, da fartura na mesa, das boas energias que a convivência em família e com os verdadeiros amigos traz.  A segurança de poder pagar as contas em dia no fim do mês.

Importantíssimo para mim, como deve ser para aquele professor, que apesar de todo o preparo acadêmico, se viu ao relento.  Outros moradores de rua nunca devem ter se imaginado numa situação tão desesperadora. Os sonhos foram forçosamente abandonados e essas pessoas parecem ter sido esquecidas pelo poder público e pela vida. Há poucos anos, a rua era de lugar de pobres e miseráveis, alguns com problemas de abuso de álcool e drogas (o que não é o caso do professor), mas essa realidade mudou e o desamparo alcançou pessoas da classe média (ela está em extinção?).

Penso em quantos alunos já se encantaram pela vida a partir das aulas de filosofia, literatura ou redação desse professor.  Quantos leitores já se encontraram nas páginas de um de seus oito livros publicados? Ex-morador de um apartamento de luxo na Tijuca, com a morte do avô perdeu o porto seguro. Além de tristeza, essa história provoca reflexões sobre o dia de amanhã.

É preciso estar preparado porque ninguém planeja terminar a vida na miséria. Mas é isso que certamente está reservado a uma parcela da população que depende unicamente do estado mínimo para ter acesso à saúde, educação, habitação, infraestrutura e outras políticas públicas que gerem emprego, todas essenciais à dignidade humana e à qualidade de vida. Confesso que me assusta que haja parcela tão significativa de brasileiros 'terrivelmente' abandonados à própria sorte, por motivos diversos, que não cabe neste momento abordar.

"Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece". (Tiago 4:14). Que Deus realmente tenha misericórdia do povo brasileiro. Que "Ele" seja sempre o nosso porto seguro e águas tranquilas. Porque se está difícil, esteja certo, pode piorar.


Anete Lacerda Jornalista

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