I - Como surgiu a televisão em Cachoeiro - Jornal Fato
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I - Como surgiu a televisão em Cachoeiro

Relato minha aventura na serra do "Caramba" e a euforia de ter Televisão em Cachoeiro!


Mário Garcia Aguiar

Relato minha aventura na serra do "Caramba" e a euforia de ter Televisão em Cachoeiro! Começo por outro aventureiro, Jeveaux, comerciante que comprou algumas TVs. Tentava ligá-las, mas só aparecia muito chiado e  alguns chuviscos. E assim, frustrado, desistiu da televisão.

Com o passar dos tempos, o interesse em conseguir uma boa televisão só aumentava. Após meses, apareceram, Aroldo Braga Machado vulgo "Chanchudo" e José Antonio Moura, vulgo "Zé da Joia", por ter loja de joias na Rua 25 de março, vizinho à nossa "Casa Radar", de propriedade minha e de meu irmão Isaac. Nessa época, surgiram em  Cachoeiro várias lojas que começaram a vender televisões. Aí apareceu a empresa "Emerson" que foi ao Zé da Joia e ofereceu um engenheiro eletrônico para procurar o tal sinal de TV e, assim, colocá-lo no ar em Cachoeiro. Uma das condições para enviar o engenheiro, era o Zé da Joia, de início, comprar 10 televisões.

José, muito amigo nosso e vizinho, veio, como de costume, a nossa loja e falou: -  "Amigos, tenho uma boa a lhes oferecer"!  E nos chamou para ajudá-lo. Me empolguei, mas fiquei com a "pulga atrás das orelhas" por ter pouco conhecimento da técnica. Mas com a agitação do amigo, acabei aceitando. E assim combinamos de ir com o engenheiro, com o Aroldo Machado, empolgado, com o Zé da Joia e mais dois amigos,  procurar o sinal na "Serra do Caramba". Partimos num domingo cedo e começamos a escalada da pedra do Caramba. Na subida, pegamos chuvarada; o caminho do velho Caramba ficou escorregadio. Subia um pouco e lá vinha Zé da Joia de volta caindo, e nós juntos. Com muito sacrifício chegamos ao topo da serra! Caminhamos lá por cima, com o engenheiro procurando localizar o sinal.

O engenheiro não encontrou sinal que satisfizesse. Escureceu; caiu aquela chuvarada. Saímos caminhando e encontramos o Sr. "Caramba", velho caboclo, cabelos grisalhos, que ofereceu abrigo em sua cabana. Cabana bem arrumada, chão limpo. Ele nos ofereceu uma garrafa de pinga para esquentar. Que maravilha aquela pinga! Estava  muito frio e nós molhados por causa da chuva. Torcemos nossas roupas e tomamos a pinga do Caramba. Aí ele puxou uma sanfona e umas esteiras e lá ficamos cantando  noite adentro, até dormirmos, cansados. 

Quando amanheceu,  partimos de volta. Devido à chuva, o trajeto estava escorregadio, mesmo assim chegamos enlameados, iguais a porcos. Ficamos muito  frustrados por não achar bom sinal de TV pra Cachoeiro... e por Zé da Joia não conseguir tirar proveito para vender suas televisões,  que já tinha adquirido e estocado em sua loja.

Aroldo Machado, o Chanchudo, teve uma ideia de gozador; combinou de a gente ir à loja do Zé da Joia e dizer: - "Zé, o engenheiro da Emerson, depois disso tudo, vai embora, de regresso, e você poderia presenteá-lo com um relógio de sua loja, para agradá-lo e assim segurar ele,para voltar em outras serras a procurar um sinal bom para Cachoeiro.

José concordou logo com a ideia e  foi imediatamente a sua vitrine; pegou um relógio barato e perguntou: - "Este está bom Aroldo"? Aroldo respondeu: - "Não Zé, escolha um melhor"! E Zé voltou à vitrine, pegou um folheado a ouro,  e perguntou outra vez: - "E agora, este está  bom"? Aroldo respondeu balançando a cabeça positivamente: - "Esse  sim irá agradar mais o engenheiro", e  nos piscou o olho.

Dia seguinte nos reunimos com o engenheiro e Zé da Joia foi com o relógio. Antes dele oferecer o presente, Aroldo correu e falou para Zé que era gozação; que o técnico engenheiro já iria ficar, pois era de seu interesse também achar o bendito sinal! Zé ficou zangado, mas aliviado de não ter que dar o presente ao engenheiro.

Fomos, novamente, em busca do sinal, desta vez na serra do Frade e a Freira. Escalamos a pedra, e nada de sinal bom! No outro dia resolvemos ir numa serra ao lado, a "Mãe do Frade". Lá, finalmente, encontramos bom sinal: 10 decibéis, o ideal. Eufóricos, retornamos felizes com o objetivo alcançado!

Depois dessa descoberta, requisitaram outro técnico, pelo fato de eu não me interessar muito pela a manutenção do sinal, devido  aos compromissos com nossa loja. Encontraram Aloizio Vantil, bom técnico em eletrônica, valente guerreiro, que assumiu a manutenção. E assim, por muito tempo, o sinal da TV aconteceu em Cachoeiro e Zé da Joia vendeu mais televisores!

Na pedra da "Mãe do Frade" foi instalada a primeira torre de transmissão do sinal da TV de Cachoeiro; fomos os pioneiros da façanha!

(Texto que retirei do facebook, página do Mário Garcia Aguiar. Infelizmente ele não mais está entre nós - fiz acertos pontuais, sem mexer na história contada pelo Mário).

 

"MÃE DO FRADE"

 

SERRA DO CARAMBA

 

II - Como surgiu a televisão em Cachoeiro

Depoimento de Aroldo Braga Machado

- Em novembro de 1961, João Calmon, diretor da TV Tupi Rio, passou telegrama para o prefeito de Cachoeiro, Raimundo Andrade, informando que a TV Tupi havia colocado novo transmissor no Rio de Janeiro, com potência para a televisão alcançar Cachoeiro.

Sabendo deste telegrama, me juntei a outros amigos (Marcílio Machado, Sidney Marreco, Zé da Joia e outros) e comprei uma televisão para fazer testes. Percorrendo morros de Cachoeiro, não localizamos sinal em ponto algum. Janeiro de 1962, fizemos teste na pedra da Tijuca - no "Caramba". Nada, não havia sinal. Na época fizemos testes no Frade; tivemos sucesso, alcançando sinal de 120 MW. O bastante para que Cachoeiro tivesse televisão.

Para transportar o material necessário à pesquisa, tivemos apoio do prefeito Abel Santana que colocou o Tiro de Guerra à nossa disposição, com grande participação do sargento Merçon. As subidas às pedras eram difíceis: necessário material de alpinismo; tínhamos de dormir no local e, para isso, montávamos acampamento com lona de caminhão. Tínhamos 15 atiradores do Tiro de Guerra dando cobertura.

Logo após, fundamos a "Sociedade de TV de Cachoeiro de Itapemirim", cuja primeira diretoria era: Presidente João Franklin Machado, Vice Pedro Lesqueves; Sydney Barbosa Marreco, secretário; José Moura Antônio (Zé da Joia), tesoureiro. O Conselho Deliberativo era constituído por mim, Aroldo Braga Machado, Wilson Moura, Ryve Campos Barboza, sargento Fausto Merçon, Mario Casotti e Lourival de Paula Serrão. O técnico que participou ativamente nos trabalhos e ficou com a manutenção dos equipamentos foi Aloísio Vantil. Contratamos a então famosa "Emerson do Brasil S/A" para instalar a televisão na cidade; era ela quem fabricava os aparelhos.

A inauguração foi em janeiro de 1964. (O depoimento me foi dado em 22/junho/2010).


Higner Mansur Advogado, guardião da cultura cachoeirense e, atamente, vereador

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