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Diariamente tenho o hábito de ler informações trazidas pelos meios de comunicação


Diariamente tenho o hábito de ler informações trazidas pelos meios de comunicação. Além dessas, muitas notícias, que carecem de filtro, nos chegam pelas redes sociais, o que me permite afirmar que: todos os dias meu coração se angustia quando se depara com alguns comportamentos humanos, digo, desumanos.

Imagino que, se conseguisse torcer o papel ou, quem sabe, virar a tela do computador ou do celular, não pingaria, mas jorraria sangue inocente, pois, a todo instante, vidas são ceifadas, sonhos são apagados e amores se tornam solitários. Sem falar na morte em vida imposta a muitos pela ganância e pelo egoísmo de poucos que acreditam ter o sangue "azul".

Houve uma fase da vida na qual optei por não ler notícias e desejei excluir as redes sociais. Confesso que, só com a primeira atitude, a opção pela alienação me fez bem. Contudo, a curiosidade, o instinto ou a essência social que há em mim, não sei o quê, teima em me despertar o forte desejo de saber o que está a ocorrer em Cachoeiro, no Brasil e no mundo.

Assim, sob justificativa de me atualizar, confesso que as vezes sinto a alma pesada e o corpo parece ser sugado pelo chão com algumas informações que me chegam. Passo a sentir dores que não são diretamente minhas, embora devam ser de toda sociedade organizada.

Em decorrência dessa realidade desumana que nos é esfregada diariamente na "cara", dias destes, estava eu a conversar com uma amiga e chegamos a um ponto comum:

- A ignorância tem seus encantos e seus alívios!

Desconhecer a gravidade de certas doenças e acreditar que todas as pessoas são boas ou, ao menos, que têm os mesmos comportamentos e pensamentos que os nossos, é confortante e nos deixa mais leves. Contudo, nos faz eternos imaturos, pois a maturidade se alcança com a superação dos desafios diários e não na calmaria.

O problema é que, na busca pelo conhecimento, mais nos sentimos compelidos a conhecer e mais sofremos com algumas verdades que se tornam conhecidas. Contudo, isso não importa, pois, como ensina o imortal Sócrates: "só sei que nada sei".

A consciência de nossa ignorância nos desperta a, a cada conhecimento adquirido, querer mais conhecer. O desafio, especialmente nessa Era na qual as informações chegam em tempo real, é ter a competência de distinguir o conhecimento necessário do fútil e dispensável.

Isso porque, junto aos bons e imprescindíveis saberes, nos chegam muitos lixos, estes aptos a contaminar nossa essência humana antes "em branco" e pura.

É uma pena que nasçamos como uma "folha de papel em branco" (filósofo John Locke), portanto, livres de manias, de maldade e de vaidades, mas, na construção pessoal da humanidade, muito de desumano nos seja lançado. Assim, em meio às imundices que nos alcançam junto às coisas boas, a sociedade se automutila, se autodestrói e adoece rapidamente.

Quem me dera que nossa vida em branco fosse escrita com letras coloridas, em tons brilhantes cujo vermelho representasse a cor do coração e não a cor do sangue de pessoas inocentes espalhado pelos ares. Seria bom se o nosso cheiro exalasse a flor de jasmim e não vinagre e morte.

 

Katiuscia Oliveira de Souza Marins

 

 

 

 

 


Katiuscia Marins Colunista/Jornal Fato Advogada e professora

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