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Tempos difíceis!

Eu nunca compreendi o que leva alguém a interpretar a opinião alheia como uma ofensa


Eu nunca compreendi o que leva alguém a interpretar a opinião alheia como uma ofensa pessoal e não como uma coisa que simplesmente existe e foge do nosso controle. É como se quando alguém dissesse "não gosto de azul", na verdade, estivesse querendo dizer "não gosto de você porque você usa azul". Há uma dificuldade em receber opiniões divergentes de forma lógica e só conseguir enxergar aquilo que se opõe através da lente emocional. Perceba que não me refiro ao argumentum ad hominem, onde uma pessoa, claramente, desqualifica o autor e não o conteúdo, mas àquela opinião usual que somente não corresponde a do outro.

Passei a perceber essa deficiência quando vi que muitos dos meus amigos optavam por se distanciar sempre que eu contra-argumentava alguma coisa que eles diziam. Optavam pelo silêncio, pelo recuo, nunca pela continuidade da boa convivência. 

O que não se considera, de fato, é que é a pluralidade de pensamentos que compõe e legitima o espaço em que vivemos. A unanimidade conduz todo mundo à ignorância e, aliás, ela só seria possível se formássemos uma sociedade de autômatos, mas não formamos. Somos seres humanos e seres humanos percebem o mundo através dos seus sentidos e são influenciados pelas suas experiências individuais, sendo levados a ter visões subjetivas das coisas que os cercam. Ou seja, não há nada mais comum e natural que alguém discordar de você, mas há algo substancialmente tirano em acreditar que isso inviabiliza uma convivência razoável. Em outras palavras, o problema não é um amigo discordar do que você diz. O problema é um amigo deixar de ser o seu amigo por discordar do que você diz. Isso vai além de remover alguém de sua lista nas redes sociais: impor a consonância das ideias para que uma amizade possa existir é um comportamento autoritário.

Dia desses, por exemplo, notei que uma amiga havia me bloqueado de todas as redes sociais. Era uma amizade de quase 15 anos. Questionei e recebi um "você pensa muito diferente de mim" como resposta. Nunca mais nos falamos. Eu não sei como ela está. Outra vez foi um amigo, que me deu a mesma justificativa e há mais de um ano não nos vemos nem conversamos. Uma amiga muito próxima também se afastou. "Não dá pra conviver com você", foi o que me disse quando busquei satisfação. 

Quando um alguém sem muita importância corta relações por não conseguir entrar em sintonia com as suas opiniões, tudo bem. Podemos dizer que falta tolerância, que há resistência em aceitar as pessoas e consentir suas práticas mesmo quando as rejeitamos. Mas, quando quem faz isso é um amigo, o que falta é amor. 

Não existe amor sem a aceitação do outro como ele é, não existe amor onde existe tirania e, onde não existe amor, não existe amizade.


Leandro Vieira

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