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Ventos fortes e pipas no céu remetem ao meu irmão Marcos


Ventos fortes e pipas no céu remetem ao meu irmão Marcos. Ele era apaixonado por elas e aprendeu a confeccioná-las ainda bem novo, para poder desfrutar das delícias de sua brincadeira favorita com as melhores, que alcançassem as maiores alturas e fossem imponentes e bonitas.

Não se achava pipas aerodinamicamente perfeitas prontas, dizia ele. E por isso aprendeu e fazia as próprias e dos amigos, competidores das alturas como ele. Certa vez, ainda bem no início do bairro BNH, as ruas esburacadas por causa da colocação de manilhas, caiu num buraco e foi resgatado algum tempo depois.

Nem sei por quem, mas acho que por um vizinho pouca coisa mais velho, mas bastante assustado pelo corte no cílio que sangrava abundantemente. E o Marcos na maior tranquilidade, que a serenidade sempre foi uma de suas principais características. Reclamação da dor? Jamais.

Externava o orgulho de ter cortado várias antes da queda, que era habilidoso soltador de pipas. Se a maioria era confeccionada por ele, a diferença estava do lado de cá, entre a pipa e o carretel. E ele era bom nisso. Sabia perfeitamente soltar e recolher a linha no tempo milimetricamente correto.

E no dia seguinte, lá estava ele envolvido novamente com sua brincadeira de criança, na maior alegria, como se não tivesse quebrado a cara no dia anterior. É quando penso o quanto é bom ser criança. As cicatrizes não representam nada além de marcas que merecem ser esquecidas em função de coisas muito mais prazerosas.

Nada de trauma ou de ficar remexendo feridas. De abrir mão do que realmente vale a pena em função de medos até justificados, mas que não devem nos paralisar. Há quem diga que tudo o que queremos está do outro lado do medo. Mas para alcançar o outro lado é preciso despir-se de preconceitos e encarar de frente os nossos maiores desafios. Que muitas vezes são impostos por nós mesmos, que somos nossos maiores críticos e algozes mais impiedosos.

Para vencer o medo é preciso ser livre como pipas ao vento. Nós devemos controlar a linha que nos dá corda ou nos recolhe, de acordo unicamente com o nosso desejo e vontade. Talvez por coincidência minhas filhas gostassem de pipas e sempre brincaram com o pai. Achava ótimo porque queria para elas a sensação de liberdade de soltá-las. A mesma que sinto até hoje ao contemplá-las.

Com uma saudade dolorida do meu irmão, que deixou marcas profundas a partir das coisas simples. Aprendi com ele que a vida deve ser intensamente vivida. Afinal de contas, se a pipa for cortada à nossa revelia, teremos feito o que nos proporcionou momentos de alegria e prazer incontidos, apesar das cicatrizes.

Que nos permitamos o sonho de Ícaro, deliciosamente interpretada por Biafra. "Voar, voar, subir, subir... / O que sai de mim vem do prazer/De querer sentir o que eu não posso ter/O que faz de mim ser o que sou/ É gostar de ir por onde, ninguém for". Que sejamos desbravadores da vida.

 


Anete Lacerda Jornalista

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