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E a memória voou ao passado, recordando palavras da minha avó parteira, que tinha afilhados que trouxe ao mundo para todo lado


Foto: Divulgação

Assistindo a uma matéria sobre a queda de lascas de uma pedra gigante no interior de Castelo, com o devido afastamento de produtores rurais e suas famílias do lugar onde nasceram, cresceram, casaram, fizeram filhos e seguem a vida, lembrei-me da expressão "com o umbigo enterrado", representando as pessoas resistentes a mudanças.

E a memória voou ao passado, recordando palavras da minha avó parteira, que tinha afilhados que trouxe ao mundo para todo lado. "Comadre, não esqueça de enterrar o umbigo da criança". Seguida da recomendação: dos meninos, no chiqueiro ou na porteira, para ficarem ricos, e das meninas, no roseiral, para ficarem bonitas e serem queridas e saudáveis (devia conter uma recomendação implícita "para arrumarem um bom casamento).

Aquelas famílias castelenses devem ter os umbigos literalmente enterrados naquelas terras. O vínculo com a comunidade vai além dos rastros que deixam a cada pisada no solo quase sagrado onde de fato ficaram raízes. Agora que são impelidos para fora, pela força da natureza, saem com lágrimas nos olhos. Mas não protestam.

A resignação dolorida por hora é a única companheira, até que um laudo aponte o caminho definitivo, perto ou longe do pequeno paraíso encrustado entre as montanhas. Num lugar de clima ameno e convivência harmoniosa. Com umbigos entrelaçados ao longo dos anos, nas roseiras, chiqueiros, porteiras e onde mais a crendice mandou.

É quando penso nas pequenas dores do dia, que nos paralisam ou impulsionam e enrijecem sentimentos e atitudes. Nossos umbigos podem ter sido, ao longo da vida, enterrados em lugares tóxicos, arrastando-nos com ele a locais que fomos por descuido, à nossa revelia. Contra a nossa vontade, que despercebidos ou negligentes, nos permitimos fincar raízes onde nunca foi nosso porto seguro. Por puro comodismo.

Não podemos aceitar o sepultamento de sonhos, projetos e até mesmo das loucuras que nos fizeram quem somos. É preciso recusar a pá de cal sobre nós, por melhores que sejam as intenções de quem nos enterra (existe boa fé em quem nos enterra?).  Se é para buscar riqueza, nem sempre o trabalho vai nos conduzir a ela, mesmo que nossos umbigos tenham sido enterrado no chiqueiro ou na porteira de uma fazenda. É mais complexo que isso.

A beleza depende 99% da genética. Se ela for boa, a beleza será eterna companheira, inclusive na terceira idade (tenho uma companheira de fisioterapia linda, já nos 80 anos), mesmo que seu umbigo não tenha sido enterrado no jardim, em meio às mais belas rosas.  Nos casos em que só os tratamentos estéticos podem mascarar a "feieza", enterrar o umbigo conforme manda a tradição não resolverá nada.

Entendo importante, imprescindível e inadiável florescer em locais que nos façam divagar, viajar, ser feliz. Se para tanto é preciso ser enterrado, que seja apenas pelo tempo suficiente para os brotos viçosos romperem a terra, rumo à luz e ao céu. Na cidade ou no campo, perto ou longe, o importante é florescer. Que a floração aconteça em momentos simples e sublimes, que nos permitam enxergar poesia e beleza na brisa que sopra o rosto numa amena manhã de qualquer estação. O tempo não importa. Enterro ou floração? Eu prefiro a poesia.


Anete Lacerda Jornalista

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