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Geralmente ouço mais do que falo e aprendi, muitas das vezes, a me fingir de morta


Tenho paixão por observar, apurar e escrever. Fora os percalços financeiros da profissão, sou absolutamente feliz como jornalista e assessora de imprensa. Geralmente ouço mais do que falo e aprendi, muitas das vezes, a me fingir de morta. "Calar é ouro", já dizia minha avó.

Não tenho interesse de mostrar conhecimento, mesmo que o tenha, nem de estar em evidência, a não ser como fruto de um trabalho bem feito. Estou quase sempre nos bastidores. Foi assim praticamente a vida toda. Diria que sou uma profissional quase invisível, embora os resultados, felizmente e sem falsa modéstia, sejam satisfatórios.

Mas me entristeço com o jornalismo que se pratica hoje. Ou melhor, desde sempre. Basta ler Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, que chantageava quem fosse preciso e dava as manchetes que coubessem nos seus interesses, para ganhar dinheiro e conquistar poder. Ele teve sua história contada por Fernando Moraes no livro Chatô, o Rei do Brasil, que também virou filme produzido e dirigido por Guilherme Fontes. O agravante de hoje é a tecnologia e a velocidade com que as informações correm o mundo, para o bem e para o mal.

Existem tantos interesses que movem a divulgação de uma notícia que fica difícil avaliar quem será beneficiado ou prejudicado. Ou então, o que é pior, na maioria das vezes identifica-se imediatamente, tamanho o descaramento dos poderosos donos dos veículos. Contam os interesses dos patrocinadores, das grandes fortuna, dos caciques de todas as esferas de poder e, se sobrar, do leitor, telespectador e do ouvinte, exatamente nesta ordem.

Falamos dos grandes veículos do país, que derrubam ou elegem quem quiserem apenas mudando manchetes e chamadas de jornais, revistas e programas de televisão. E não desprezem os veículos considerados pequenos. Eles têm a força. E podem fazer estragos memoráveis.

Penso no quanto os gigantes e ícones do jornalismo brasileiro sofreram e pagaram o preço por estarem em veículos que muitas vezes compravam e vendiam ideias que era contra tudo que pensavam. Queria ter vivido a efervescência, o rebuliço do Jornal do Brasil, que encerrou suas atividades on line em 2010, mas deixou marcas na história. Sobreviveu à ditadura e tombou provavelmente por problemas financeiros.

Queria o prazer da convivência, e certamente aprendizado, com Zuenir Ventura, Alberto Dines  e tantos outros ícones que emprestaram seu talento àquela redação. Pensar que Ruy Barbosa foi editor mostra o nível dos profissionais que fizeram a história de 119 anos do JB.

Imagino a habilidade das equipes para enfrentar bravamente a ditadura mantendo o jornal em circulação, mesmo sem poder dizer tudo.  Falar pouco, mensagens subliminares, meias palavras e verdades inteiras. Com coragem e competência. Nos dias atuais, quem está na alça de mira, atendendo os interesses de quem e a que preço? Acho que tenho respostas, mas esse é um caso em que cada um precisa encontrar a sua. Fujo do ódio que torna a todos animais irracionais manipulados e manipuláveis. Eu quero paz.


Anete Lacerda Jornalista

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