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Desinspiração

Difícil descrever a sensação de urgência, o aperto no peito e as inquietações


Difícil descrever a sensação de urgência, o aperto no peito e as inquietações, mesmo com o dia completamente iluminado lá fora. Tudo parece normal. O calor intenso aquece o corpo, mas a alma parece congelada. A frieza, indiferença e desinspiração vencem a mulher sensível e criativa.

Sempre foi vista pelos amigos como dinâmica e talentosa. De fato já foi, mas não é mais a mesma. Está sombria. E até medíocre, diria. Por quanto tempo, só próprio tempo dirá. Aquela escritora que esbanjava energia e disposição deu lugar a alguém que desconhece.

Não tem explicações. Não quer levantar da cama, que parece grudada às costas. Sabe que tem uma agenda enorme a cumprir, mesmo que não precise sair de casa com frequência. Bendito home office, que permite a vida produtiva, sem a necessidade do salto alto, maquiagem e produção caprichada.

Está livre dos sorrisos forçados e da simpatia permanente, mesmo diante do caos. Pode, sem culpa, passar o dia de pijama na frente do computador, se entupindo de porcarias enquanto o pensamento voa e não chega a lugar algum. Protegida da censura e dos olhares recriminadores.

Mais que isso. Despida da capa de heroína que a crítica lhe deu. A melhor, mais perspicaz, de texto leve e bem humorado, com personagens bem construídos e histórias de tirar o fôlego, ao ponto de ser impossível parar de ler antes do ponto final.  Em casa dispensava essa personagem inventada. Ela não se sustentava, pelo menos por enquanto.

Existem textos a serem escritos.  Livros a produzir. A editora tem pressa. As feiras país afora demandam novas publicações. Mas a inspiração saiu sorrateiramente e aparentemente perdeu o caminho de casa. Mas a escritora insiste. Tecla, apaga (lembra nostálgica da máquina de escrever barulhenta e pesada, em que a borracha era o "x". Escreveu muitos artigos e livros na sua velha Remington), reescreve, num exercício constante em busca da desejada inspiração.

Gosta de escrever, se realiza com a vida que dá aos seus personagens, se alegra com as conquistas deles e chora suas dores. Não se imagina fazendo outra coisa. Mas se questiona. Se é assim, por que tanta dificuldade? Enquanto busca respostas, um beija-flor pousa na janela. Ela observa o bater frenético das asas.

E como num passe de mágica, as palavras jorram e os nós das impossibilidades são desfeitos. Respira aliviada e começa a escrever com a sensação de paz e liberdade há muito esquecidas. Pressente novos dias. Esperança renovada enfim. Bendito beija-flor. Alegria e inspiração nas coisas simples, nas partidas e chegadas, nos começos e recomeços. Sorri enigmaticamente. Era, enfim, a mulher que novamente mandava nas palavras. Com ímpeto e paixão. Como deve ser a vida. Enfim bem acompanhada.


Anete Lacerda Jornalista

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