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Prazer, urubu!


Desde adolescente eu ouvi dos meus professores de História que a humanidade vivia num ciclo constante de acontecimentos, principalmente entre a lufada da liberdade e a couraça de repressão. E para quem foi um pouco além das lições escolares sabe o quanto a humanidade progrediu e floresceu em arte, tecnologia, ética e liberdade em determinados períodos e regrediu implacavelmente em outros. Aliás, o mais curioso é que as vezes progredia apenas em alguns assuntos e se estagnava ou voltava em outros.

Como esquecer a Grécia Clássica que tolerava e incentivava a homoafetividade e desprezava profundamente as mulheres com posições semelhantes a de escravos? Ou a caça às bruxas que ao contrário dos que muito pensam ter sido na Idade Média, se intensificou no Renascimento?

O Irã se tornou uma mesquita gigante após a revolução de 79.

A humanidade passou por tantas mudanças radicais e parece que nós nunca aprendemos definitivamente. É por isso que há a necessidade de revolvermos, ruminarmos o passado obscuro, ameaçador e insistente como coração rejeitado. Não importa quantos "nãos" ele receba, é tudo em vão. Ele quer voltar a namorar com você.

O passado quer voltar e vem disfarçado de outras roupas, com discursos "diferentes" disseminados em outras tecnologias, com causas e ativismos "diferentes" para nos reconquistar motivado pela "benfeitoria". Porque ele sabe o que você precisa, que você é assim, solucionar o seu vazio. E por isso a benfeitoria se tornou mestre em tirania.

Alguns podem chamar os historiadores e divulgadores de urubus que cultivam um passado que deveria ser esquecido. Esquecê-lo é pedir para revê-lo. O passado é a nossa linhagem, o caminho percorrido até o nosso presente.

Ler sem censura, desfilar no carnaval, poder dormir 8 horas por noite ou blasfemar contra as "divindades". Para estes e cada aspecto da nossa vida há canais de jornadas invisíveis que estão construindo outros canais.

Os urubus do tempo precisam nos lembrar quem nós somos e poderemos ser por herança. A liberdade nunca "é", ela "está".

Estejam atentos ao seu enfraquecimento que poderá levar muito tempo até que seja sentido. Talvez, apenas quando estivermos imersos em opressão.

As eras geológicas possuem um relógio que aponta para escalas milenares e os ponteiros da nossa História avançam cada vez mais rápido, é verdade, mas independente da velocidade nós nunca conseguimos alcançá-los para pará-los. Ele vai voltar.

Os urubus podem ser feios, mas tem a sua utilidade.


Dayane Hemerly Repórter Jornal Fato

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