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Anos atrás visitei Santiago de Campostela, cidade ao norte da Espanha, criada em homenagem ao apóstolo Tiago


Anos atrás visitei Santiago de Campostela, cidade ao norte da Espanha, criada em homenagem ao apóstolo Tiago. Segundo a lenda, no local onde foi construida a Ca tedral e a cidade foi encontrado o corpo, séculos após sua morte, do santo evangelizador. Uma cidade mística com muitas trilhas em seu caminho. Caminhei pouco, na verdade, fiz o percurso de Madri à Santiago de ônibus. Mesmo assim, recebi o certificado de peregrino de Campostela. Na ocasião me chamou a atenção e impressionou foi o momento final da missa com os peregrinos do mundo inteiro. Vi uma cortina de fumaça, proveniente de um Bota-fumeiro, ocupando toda cúpula da igreja, uma leve neblina e uma transcendência quase possível. O cineasta João Moreira Salles, em documentário, ouve e mostra a história daquele que serviu sua família por vários anos. A história de Santiago, seu mordomo, mistura-se com sua história e da casa transformada em museu. A conversa foi gravada anos atrás. Com essa mostra, ele afirmava ser seu último trabalho. Não soube explicar o significado das lembranças, não se importava em interpretá-las, deixava a tarefa para o público. Penso que a memória serve para nos mostrar os fragmentos da intimidade. E com isso ensinamos o que sabemos e aprendemos o que nos falta. Talvez, a filmagem, seja isso: juntar os fragmentos, pedaços da nossa existência e conhecimento.

Conheci, tempos depois, Santiago, capital do Chile. Cidade sempre em franca expansão e desenvolvimento. Guarda um ar pacato, acolhedor e inocente. Os montes brancos, cobertos de neve, que formam a Cordilheira dos Andes e contornam toda parte principal da cidade; a catedral de arquitetura ousada e interior deslumbrante com as cores variadas de seus mármores despertam das lembranças os fragmentos necessários para o prazer da vida. A cordilheira se estende por milhares de quilômetros, da Venezuela até a Patagônia da Argentina e Chile, mas é na capital chilena que ela se mostra mais enigmática. Também em nossas pedras (Itabira, Frade e a Freira, Pedra da Penha), envolvendo o vale de Cachoeiro de Itapemirim, fixam da memória, as lembranças e reminiscências, tanto quanto as cobertas de neve dos Andes e parecem se juntar às pedras dos náufragos de Neruda. Em nossas incertezas, inseguranças, timidez e temores temos nesses picos o nosso pouso. Sua frieza quebra-se com os nossos pensamentos. É o que sentimos no vale de Cachoeiro, nas cordilheiras ou nas pedras da Ilha Negra de Pablo Neruda. Eu não sei você, mas quando viajo carrego em mim a apreensão, o medo da perda das coisas da vida, das pedras que deixamos, mais ainda nesses tempos de pandemia. Medo de adoecer longe das coisas e pessoas em que nos habituamos. Mas, a busca do novo nos empurra, mesmo sabendo que as coisas que ficam no presente e aquelas do passado foram as que nos marcaram. Tão logo voltamos, e se constata que as coisas continuam como sempre, um tempo não mudado, com o futuro a ser construído, desmancha-se o medo e nos leva a pensar em partir novamente. No ir, partir e voltar vamos chegando ao fim. Até sermos esquecidos por muitos.

 

Sergio Damião Santana Moraes


Sergio Damião Médico e cronista

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