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Retrato de sonhos

Quando criança ficava imaginando o futuro


Quando criança ficava imaginando o futuro. Tentava adivinhar o preço do cigarro quando alcançasse a adolescência, uma dependência tolerável na época; adivinhar a cor do carro a ser adquirido; a casa da minha moradia e o emprego desejado. Acalentava o desejo de tudo isso acontecer no lugar onde nasci e cresci. A adolescência passou como um meteoro. Não houve tempo para pensar, foi consumido pelos esforços estudantis. Ficaram os sonhos distantes, pois: o carro demorou a vir, o cigarro não fumei e na casa nunca morei. Com o passar dos anos, numa cidade distante da infância, os sonhos se modificaram. A casa foi substituída pela segurança do apartamento e a cor do carro já não importava tanto. A consciência dos malefícios do tabaco, a certeza da dificuldade do emprego, a tristeza de saber que nem todos podem tê-lo, substituíram os meus sonhos. Apesar de preferir o tempo de ilusão da infância, a consciência - ela nos atormenta e nos leva a pensar em ações que melhorem a sociedade. Passei a comprar em empresas e lojas preocupadas com projetos educacionais, incentivadoras de ações preventivas e que valorizem mulheres e homens nas mesmas proporções.

Com o tempo sonhamos menos. Pensamos mais. Sofremos. Lembramos cada vez menos dos nossos sonhos e pensamos mais nos que nos rodeiam. Vivemos o que os filhos, netos e pessoas próximas aspiram: o que querem ser e como vão ser. O que desejamos não importa tanto. Abrimos mão dos nossos sonhos. Voltamos no tempo através deles. São livres para pensarem, sentimo-nos cúmplices. Não decidimos, consentimos. Seus desejos são os nossos desejos. Seus sonhos tornam-se os nossos sonhos. Ainda que não percebamos. O diferente nos estimula. Mais diferente; mais excitante. Às vezes imagino voltando no tempo. Ficaria no meio do caminho, o medo é de perder o contato com a realidade atual. Apesar da alegria de rever os tempos idos, o medo da perda, do conquistado, não nos deixa voltar aos sonhos. Permanecemos estáticos. Acho que deve ser isto: medo. Não nos deixa pensar em outras vidas. Por mais cativante que seja sonhar, não nos permitimos. Temos medo do novo. Agarramos-nos ao presente. O máximo que nos permitimos é voltarmos com as lembranças - a memória é o único caminho permitido. Apenas nas lembranças que permitimos outra vida. A coragem de ir em frente fica num passado longínquo. A coragem adormece. Perdida na adolescência.

Como viver diferente? Sonhar ou realizar? Temos os nossos melhores sonhos na infância. Como regatá-los? Sonhos inocentes. Como vivê-los?  Como pensar em outra vida? As melhores fotografias são os flashes da infância, gravadas na memória. Caso tenham descolorido podemos atualizá-las. Temos que nos descobrir nas fotos mesmo que seja em preto-e-branco; rever, em vida, as fotografias, memória e os sonhos. Com os olhos bem abertos. Em plena consciência dos nossos atos. Senhores dos nossos desejos. Talvez seja isso, viveremos melhor quando oferecermos às crianças a possibilidade de sonharem seus próprios sonhos. Mais: felizes seremos, quando permitirmos a realização desses sonhos.

 

Sergio Damião Sant´Anna Moraes

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Sergio Damião Médico e cronista

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