Olhos não veem... - Jornal Fato
Artigos

Olhos não veem...

Silvio admirava os ditados populares, fonte de sabedoria, ensinamentos inocentes da cultura popular


Silvio admirava os ditados populares, fonte de sabedoria, ensinamentos inocentes da cultura popular. Colecionava alguns desde a infância. Na vida adulta, após o afastamento da Márcia, um ditado era de grande valia: "O que os olhos não veem, o coração não sente." Servia para a sua vida, mais ainda para os últimos meses longe da Márcia, sua paixão amorosa não concretizada. Ele procurava se afastar. Evitava os locais onde pudesse encontrá-la. Algo difícil para ele. Acostumara-se aos locais que agora evitava. Seguia novos caminhos, encontrava-se perdido numa cidade que conhecia em detalhes. Perdido em ruas e avenidas do seu convívio de anos. Poderia seguir, de carro ou a pé, de olhos fechados, sem nenhum risco de acidente. Agora, evitava os lugares onde se encontravam o olhar da Márcia. Vê-la, significava a volta da paixão. Um desejo ardente, como uma droga correndo em suas veias, tal qual um dependente químico. Um deslizar sanguíneo com efeito instantâneo cerebral. Uma explosão de imagens que desejava apagar. Desejava apagar as imagens de beijos, abraços e caricias intensas. Apagar o despertar de desejos e paixão incontrolável. Rapidamente voltava ao ditado e procurava segui-lo: não ver para não despertar o coração.

Assim, sem ver, seguia com o batimento cardíaco bem manso, seguia com o coração como de um atleta em repouso: bem lento. Há meses não sentia a taquicardia agonizante dos apaixonados. Estava em remissão química da paixão amorosa. Devia ter cuidado para evitar as recaídas. Devia resistir à tentação, mesmo sabendo que o bom da vida encontra-se nas tentações. Em alguns momentos pensava nos prazeres. Voltavam imagens em pequenos flashes. Recordava os momentos vividos com Márcia. A maneira como ela o olhava, acariciava e as várias formas que se relacionavam. Rapidamente apagava a memória. Seguia apagando lembranças e bloqueando recordações. Para ele, viver era não lembrar. Um quase não viver e sentir. Sua paixão amorosa, que ora tentava bloquear, levava a interações químicas mentais e despertava desejos incontroláveis. Era um dependente químico da paixão despertada pela Márcia. A visão era o seu sentido mais temido. Mas existia uma diferença com os dependentes químicos do álcool e outras drogas. Na abstinência, da paixão amorosa, a falta do ser amado, razão da loucura, é controlável pela distância e o tempo. Não ver o ser amado e o passar dos dias abrandava o desejo e apagava lentamente a nitidez das imagens corporais. Era o que acreditava naquele instante. Perguntava-se: A verdadeira paixão poderia ser curada? Em outras palavras, podemos esquecer uma verdadeira paixão?

Voltava ao ditado popular: "O que os olhos não veem...". Sabia que, na maioria das vezes, o que guardamos em memória é despertado a qualquer momento. Sempre nos momentos de emoções, mesmo nos involuntários, emoções não desejadas. Silvio pensava no assunto. Adormeceu. Ao fechar os olhos, foi tomado por uma imagem, nítida, tão nítida que parecia real. Sentia o perfume leve, um toque na face, um aperto em todo o corpo... Abriu os olhos, despertou lentamente, permaneceu imóvel por alguns segundos, sentia a presença da Márcia. Abriu os olhos completamente, encontrava-se sozinho. O dia estava claro. Levantou-se e seguiu pelo caminho alternativo.

 

Sergio Damião Santana Moraes

Visite meu Blog: blogazulix.blogspot.com.br


Sergio Damião Médico e cronista

Comentários

VEJA TAMBÉM...