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O galo

Era uma segunda-feira, descia a Avenida Francisco Lacerda de Aguiar


Era uma segunda-feira, descia a Avenida Francisco Lacerda de Aguiar, bem próximo ao centro de Cachoeiro, seguia caminhando, encontrava-me em frente ao prédio Central da Unimed Sul Capixaba. Passava poucos minutos das seis horas de uma manhã ensolarada. Quando me aproximei do estacionamento, ouvi alguém me chamar: Sergio, Sergio! De dentro do carro, Ricardo Girelli, colega médico angiologista, dizia: Olha, olha ao lado do carro, um galo! Saiu do carro, com certa euforia, detalhou a presença da ave. Destacou a água e o alimento à disposição do galo. Olhei atentamente e vi uma ave colorida, em dois tons: preto e amarelo distribuído pelo corpo e uma crista bem vermelha. Ricardo pediu que olhasse, atentamente, o esporão e o porte da ave. Agliberto, cirurgião geral castelense, dias depois me explicava que o porte e o canto dos primeiros raios solares se prolongando pelo dia afora são características e justificam o nome garnisé. Pela empolgação do Girelli fiquei com a impressão que ele e o galo já se conheciam de um bom tempo, algo que confirmei com o vigilante. Na verdade, a ave aparecera há mais de três semanas. O estacionamento fica bem próximo ao asfalto, mas o seu interior é de terra batida, fácil adaptação para a nossa ave. Pelo canto da madrugada e o prolongamento da cantoria pelo resto do dia mostrava toda sua alegria, apesar de certos momentos incomodarem a vizinhança urbana.

Após as devidas apresentações, eu e Girelli caminhamos em direção aos nossos destinos matinais. Eu para o CRE e ele para o Centro Cirúrgico. Antes, porém, voltamos o olhar ao galo. No momento do olhar, surgiu um pedinte. Parecia nos conhecer, pedia ajuda para o café da manhã. Com receio que o galo se tornasse o almoço do pedinte, e assim desaparecesse a garantia de um canto no nascer dos dias, fizemos a doação e ele seguiu agradecido e sorridente em direção à padaria. E nós, ao trabalho. No dia seguinte, bem cedo, procurei o estacionamento, o galo permanecia imponente e de crista elevada, apesar de solitário. Dava a impressão de comando de área, mesmo em tempo de crise econômica e Covid-19. No período da tarde, aproveitei a presença do meu neto Bernardo em nossa cidade e o levei para conhecer Frederico (nome do nosso galo). Em seus dois anos de vida, Bernardo, um paulistano típico, de apartamento e shopping, pela primeira vez encontrava-se frente a frente a um galo. Mais ainda, em frente a um galo garnisé. Quando ele avistou o Frederico, com entusiasmo, quase êxtase, disse: Vovô, vovô Sergio! Óia, óia vovô! O galo se assustou com a presença do Bernardo e esboçou um voo. Bernardo completou: Vovô, vovô Sergio! Óia, vovô: Passarinho! Com a perplexidade do Bernardo, sua imaginação de transformar um galo em passarinho, lembrei-me de uma visita que fiz a um grande quintal de roça. Várias aves: galinhas, galos, gansos, pavão... Alguém apresentou uma bandeja com ovos. Ovos brancos e enormes. Apesar da urbanidade podia garantir que aqueles não eram de galinha. Lembrei também do espanto da Clarice ao se deparar com um ovo em uma frigideira. O mesmo espanto que Bernardo sentiu ao se deparar com o voo do galo garnisé.

 

Sergio Damião Sant'Anna Moraes

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Sergio Damião Médico e cronista

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