Acaso - Jornal Fato
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Acaso


Caminhar pelas ruas das cidades, mais ainda em Cachoeiro, em dia de domingo ensolarado, permite pensar. O melhor é quando estamos sozinhos. São momentos íntimos, introspectivos, diferentes daqueles do dia a dia, da rotina da vida diária. Em um desses momentos, em uma das ruas de acesso para a beira do rio Itapemirim, pensei nas coisas das nossas vidas. Naquilo que acontece e no que pode acontecer. Na vida coletiva das pessoas, na administração e política da cidade, nas áreas para lazer e cultura que nos faltam, na educação e saúde, coisas que podem melhorar ou piorar com o voto de uma eleição municipal, estadual ou nacional. Algo que pode mudar as condições para uma vida mais saudável e a infraestrutura para desfrutá-la. Pensei, além disso, nas coisas do destino, do acaso (instantes do tempo não dominados) e naquelas que dependem do esforço pessoal (da nossa determinação).

Da determinação pessoal, pensei naquilo que é material: casa, carro, roupas, plano de saúde, algo que conquistamos com o trabalho. Alcançamos esse patrimônio com o estudo, com o conhecimento, com a transpiração corporal e inspiração pessoal. Raramente com o espólio dos nossos pais ou parentes próximos; nestes, os bens adquiridos, deixamos se perderem ou não valorizamos.

Para as coisas não materiais, lembrei-me da mitologia grega e do nascimento de Édipo. O rei, ao consultar o oráculo, é alertado de que o filho que nasce pode ser o seu fim. Ele envia a criança para a morte, sem sucesso. Na idade adulta, Édipo encontra um velho senhor em seu caminho e o mata após uma discussão. Era o seu pai. Ao chegar ao reino desse velho senhor, uma Esfinge assusta a todos. Ele decifra o enigma e a destrói. Recebe o reino e a rainha viúva - sua mãe. Para os gregos, o destino, salientado pelo oráculo, se fez realidade.

Na atualidade, viajamos muito, a mobilidade humana é grande. Acidentes e acasos são muitos. Definir profissões, parcerias, relacionamentos amorosos, família e moradia podem ser fruto da nossa vontade, ou, por conta daquilo que não dominamos. Os impulsos são muitos, alguns de domínio da razão, do nosso raciocínio lógico, da moral, dos costumes, daquilo que definimos e aprendemos como certo ou errado. Mas essas coisas da razão se desfazem quando a emoção, nossos sentimentos e desejos mais íntimos, aquelas coisas que nos fazem rir, chorar, vibrar e arrepiar aparecem, sem ao menos sabermos a razão. Nesses momentos da emoção, quando sorrimos ou choramos, é que verdadeiramente decidimos nosso caminho. Mesmo que, racionalmente, o pior ou mais difícil dos caminhos tenha sido o escolhido. Assim caminhamos, ora lentamente - racionalmente, ora apressadamente - com as emoções, em busca das coisas que nos fazem alegres. Nesses instantes, não pensamos no certo ou errado, apenas vivemos.

Porém, como na mitologia, entre as coisas do céu (deuses) e da terra (humanas), entre os bons e os maus momentos, entre as coisas imaginadas e vividas, apresentam-se a realidade e as dores, de mágoas e feridas, dos acasos.

 

Sergio Damião Santana Moraes

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Sergio Damião Médico e cronista

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