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Vítimas de notas vazias

Não raro ouvimos as expressões "lamentável episódio", "repudiamos veementemente" entre outras centenas que já são usadas na na maiorias dos comunicados oficiais de organizações que enfrentam gestão de tragédias


Não raro ouvimos as expressões "lamentável episódio", "repudiamos veementemente", "lamentamos com profundo pesar", "Investigação interna" ou "vamos contribuir com as autoridades", entre outras centenas que já são usadas na maiorias dos comunicados oficiais de organizações que enfrentam uma gestão de tragédias.

E os responsáveis pelos eventos, sempre bem orientados por notáveis advogados, são transformados em vítimas, como se nada pudesse ter sido feito para evitar, prevenir ou alertar as reais vítimas de uma catástrofe como ocorreu por exemplo, em Brumadinho.

Por mais impessoal que as notas se apresentem, transferindo as responsabilidades para outro CNPJ ou CPF, não resolvem efetivamente os resultados. Alguns fatais e com grande repercussão negativa mundial. Estamos falando de seres humanos, do meio ambiente e até da destruição de cidades inteiras.

Que fique claro que o trabalho da assessoria de imprensa e do jurídico corporativo está acima de qualquer questionamento. O que estamos debatendo neste texto é a nova forma de as empresas e entidades se relacionarem com o público. O mundo mudou. A comunicação precisa mudar. O respeito com a sociedade nunca esteve tão em voga.

Antes, era como se fosse um monólogo onde só o emissor dava a nota, justificando tal fato e ponto final. Hoje bilhões de vozes querem mais respostas, vítimas e testemunhas tem vídeos, fotos, gravações; são centenas de versões de um mesmo fato, ficando cada vez mais difícil "varrer a poeira para debaixo do tapete". Um fato tem desdobramentos e a cada dia pode surgir uma versão diferente.

Em 2015, uma catástrofe atinge Mariana em Minas Gerais. A Vale "lamentou profundamente". Utilizou de campanhas, vídeos, diversos artifícios para "tampar o sol com a peneira". E nada foi feito efetivamente para evitar novos acontecimentos. Não houve responsável. E quatro anos depois a empresa "lamentou profundamente" o caos de Brumadinho.

E nessa nova linguagem, a transparência se apresenta como principal aliada às marcas e produtos. Surge então outro fenômeno: a hipercomunicação. Às vezes é emitida uma nota sem mesmo sem ter todas as informações necessárias para essa informação, o que pode soar fria, cínica e irresponsável. E quando acontece uma tragédia, todos somos vítimas, pela mesma gama de informações que circulam pelas redes sociais.

E cada vez mais as organizações investem menos na mídia oficial - Rádio, TV, Jornais e Revistas - e focam em interações via internet, com algorítimos que tratam cada CPF como um amigo que pode render lucros. Tentam se humanizar com storytellings e campanhas que emocionam com suas histórias. Mas até quando isso tudo é verdade? Com raras exceções, ações sócio ambientais fazem um trabalho digno que merece respeito e poderia ser copiado.

Neste contexto a mídia tradicional tem um papel fundamental, quando através de um Jornalismo sério e imparcial, mostra os fatos, apresenta as versões e cobra respostas, ajudando inclusive no esclarecimento de grandes catástrofes e apoio às vítimas e sobreviventes.

Por exemplo, retomando uma tragédia recente: Vale do Rio Doce é um CNPJ ou tem gente trabalhando lá dentro? Essa frieza imediatista desde o início dos acontecimentos indica que lá existe uma "inteligência artificial" lidando com algorítimos programados para as tarefas e geração de lucro. O que não é verdade. E essa comunicação e defesa tenta tirar as responsabilidades das pessoas que comandam e transferem para uma organização: daí, a marca é a responsável. Ponto final. Insano mas realidade.

E essa rapidez que gera a hipercomunicação divulga notas e informações apenas para acalmar os ânimos da mídia e da sociedade, o que "lamentamos profundamente". Pois não é eficaz principalmente quando o acidente poderia ter sido evitado, como o centro de treinamento do Flamengo, por exemplo.

Então vamos invocar a ética. Uma nota fria e sem consistência mostra a grande fragilidade da organização. Os treinamentos ou a missão, valores e princípios das empresas colocam a ética em seus discursos, mas onde ela entra afinal, quando a conduta de seus colaboradores pode colocar em risco a vida humana? Do outro lado, boa parte da moral na sociedade está corrompida, abrindo brechas para que essa comunicação pós tragédia seja mais diluída.

E quando o erro parte de uma personalidade? Comentários considerados homofóbicos, racistas e machistas surgem nos perfis dos "formadores de opinião" com certa frequência.  Pedem desculpas e a memória fraca do povo cuida do resto. Tem que focar em outra tragédia, fofoca ou debate sem nexo que as redes sociais impulsionam. É o ilusionismo nosso de cada dia. O que lamentamos profundamente.


Ramon Barros Colunista Ramon Barros é profissional multimídia

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