Transbordamos Todos - Jornal Fato
Artigos

Transbordamos Todos

A história que vou contar para vocês, foi da varanda de casa que vi


Foto: Ronaldo Santos

A história que vou contar para vocês, foi da varanda de casa que vi. Ninguém me contou. Não foi a TV. Não foram as redes sociais. O medo não veio dos áudios polêmicos e das notícias falsas. O medo era real, desses medos que sente quem vê uma tragédia da janela e nada pode fazer. Foi um dia daqueles que a gente reza rápido e se perde na oração para tentar rezar mais e pedir mais proteção.

Fazia tempo que as águas avisavam que estavam vindo sem parcimônia. Em nenhum outro lugar por onde haviam passado elas se comportaram como das outras vezes. Havia uma força maior que pouca gente acreditou. O carro da defesa civil passou pelo centro da cidade às seis da manhã e por ali começou a encher lá pela uma da tarde. Teria dado tempo? Talvez, mas tempo de que mesmo? Teve quem conseguiu salvar tudo e quem nada salvou. Teve quem acreditou no que viu na TV, quando as águas passaram por Castelo ou Iconha, e quem achou que aqui elas não seriam tão ousadas. Mas por mais que tudo estivesse seguro em lugar alto, sempre fica alguma coisa. Ainda que seja uma coisa que ninguém consegue enxergar. Depois dessas águas, nada será como antes.

A verdade é que vi o rio encher. Vi muitos comerciantes e funcionários esvaziando suas lojas, enquanto outros apenas baixavam as portas. Vi gente correndo, vi gente chorando, vi curiosos sorrindo, vi incrédulos caminhando devagar como se o dia comum fosse. Vi famílias se arriscando na água suja com um rodo para puxar e levar para a parte ainda seca da ponte qualquer coisa que passasse: latas de cerveja, frigobar, bicicleta, boias, brinquedos, panelas. Depois tudo ficou escuro e as famílias se foram. Mas objetos que antes contavam a história de alguém continuaram arrastados pelas correntezas: sofá, freezer, ventilador, livros. No início da madrugada o rio parou de subir. No final da madrugada o rio começou a descer. Mas ainda assim o alívio não veio. A medida que o Itapemirim baixava a cena deixada era destruição, lama e tristeza. O gosto do domingo foi de lágrima que caía sem a gente conseguir conter. 

Depois da tempestade a bonança ainda vem. O trabalho de formiguinha tem sido feito por todos e cada um. Não falta água para quem tem sede, comida para quem tem fome, abraço para quem quase perdeu a esperança, colo para quem tá cansado. Apesar dos corações duros que julgam, reclamam, apontam e criticam, a maior corrente é de uma gente que segura a mão e não se entrega. Se para os maus as diferenças políticas, religiosas ou qualquer que sejam persistem, há quem nem se lembre disso. O rio transbordou e transbordamos todos. Agora que das águas estamos salvos, salvemos uns aos outros das perdas, do desconsolo e, acima de tudo, da insistente perversidade.

 


Paula Garruth Colunista

Comments