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Antes que seja tarde

Muitas pessoas já me perguntaram se eu não iria me posicionar nas redes sociais sobre o Big Brother


Muitas pessoas já me perguntaram se eu não iria me posicionar nas redes sociais sobre o Big Brother. A resposta tem sido a mesma: não assisto. E, antes que comecem os ataques, explico. Não assisto porque não gosto, sem qualquer julgamento sobre quem curte. Houve um tempo em que eu até assistia. E gostava. Do primeiro ao terceiro, quando deixei de ser assídua telespectadora. De lá pra cá perdi o interesse e considero aquilo um grande laboratório, onde usam pessoas, ora privando de comida, ora com excesso de bebida, ora com provas de resistência, e por aí vai. Tenho dificuldade com uma casa muito cheia em um feriado prolongado, imagina minha agonia com dias e dias com desconhecidos dividindo o espaço, por mais confortável que ele seja, compartilhando tarefas, alimentação, frustrações e medos, sendo colocada em análise o tempo todo, tentando driblar a saudade dos meus e uma total solidão acompanhada daqueles que nada mais são que adversários de um jogo que pode ser extremamente cruel. Para mim, não dá.

Mesmo não assistindo, é impossível mantermos uma distância razoável a tudo que tem acontecido. Mesmo não sabendo quem é quem, me perdendo nos fatos e nos nomes, manchetes, redes sociais, vizinhos, amigos e familiares alertaram a desistência de um menino, um jovem que não suportou a pressão. Minha reação foi imediata: empatia. Mesmo sem ter visto, apenas ouvido o que Lucas passou, eu também teria pedido para sair. E muito antes dele. Minha filha, que é a pessoa que mais amo e admiro nesse mundo, e que fazia parte da atenta plateia do reality, me falou semana passada que não estava dando conta de assistir, que estava fazendo mal o peso que a atração ganhou esse ano. Definitivamente impossível que mantenha o status de entretenimento. Virou fardo.

Já ciente da saída de Lucas, comecei a ler sobre o assunto e me deparei com um texto do autor Thiago Amparo. Um texto primoroso que ele intitulou "carta de amor a Lucas Penteado" e que, em determinado momento, ele escreve o seguinte: "Eis a razão pela qual tu saíste desse ritual de sofrimento que é o BBB: você não é um produto, você é liberdade em toda a sua complexidade. Sua alma genuína não cabe em um comercial, Lucas". Bingo! Era o que eu queria ter dito para Lucas ou para qualquer pessoa que tivesse reconhecido onde não cabia e tivesse decidido ir embora. O que para muitos poderia ser um ato de covardia é, na verdade, um ato de coragem.

As pessoas vão para o BBB pelos mais diversos motivos: dinheiro, carreira, vontade de viver a experiência, curiosidade. E tudo bem. Dar audiência ou não em nada diminui ou eleva. Acolho, aceito e, acima de tudo, respeito a vontade e a preferência de cada um. Eu, que assisto Masterchef, choro com Modern Love, vejo e revejo filmes considerados piegas, não estou aqui para condenar ninguém. Até acho que sou estranha por não gostar de coisas que a maioria gosta, como sertanejo, música eletrônica, short godê e unhas de gel. Mas, na verdade, não era para causar estranheza. Há uma enorme beleza na diversidade e na individualidade. É assim que a vida é.

Thiago termina o seu texto assim: "É no afeto genuíno que nos humanizamos, o resto é mercadoria. Num comercial, Lucas, nunca caberá um beijo". Fica o meu desejo de que, na vida real, caibam mais beijos e menos intolerância, porque já deu para entender que, entre cancelados e canceladores, oprimidos tornando-se opressores, aparências, julgamentos e ódio, ninguém está a salvo. O levante do afeto, da compreensão e da aceitação precisa chegar. Logo. Antes que seja tarde. Mais do que nunca, só o amor será revolucionário.

 

Paulinha Garruth

(28) 99222.4436


Paula Garruth Colunista

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