O silêncio é ouro - Jornal Fato
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O silêncio é ouro

Pessoas que acham o maior barato ser depreciativo e arrogante e não ter o mínimo de afeto


"Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos." - Nelson Rodrigues

É mais comum do que gostaríamos que fosse pessoas dizendo que hoje em dia não podem falar mais nada, que tudo é ofensa e "mimimi". Pessoas que acham o maior barato ser depreciativo e arrogante e não ter o mínimo de afeto. Nas redes sociais então, a coragem dessa gente protegida pela tela do computador é imensa. E parece que quanto mais não suportamos essa gente cafona mais eles querem colocar para fora todo preconceito e intolerância.

Lembrei desse time de covardes quando li sobre o caso da digital influencer que cometeu suicídio depois de tentar dar a volta por cima e casar-se com ela mesma e sofreu todo tipo de bullying e violência nas redes sociais. Os comentários, agora apagados (registra-se que tarde demais), eram os mais lamentáveis possíveis. Foi acusada de fazer publicidade, o que não teria problema algum, já que a profissão que ela tinha era ligada diretamente a isso, de ser feia, de ser negra, de sofrer de depressão. Isso tudo não dito assim, levemente, e sim jogado com uma violência que assusta qualquer pessoa minimamente coerente. No momento em que ela mais precisava do apoio, seus muitos seguidores viraram haters e ajudaram a quebrar o fio que já era frágil - o que ligava essa moça à sua vida. Não estou apontando culpados do seu suicídio, porque, antes que ela tirasse de forma definitiva a sua vida, essas pessoas já a tinham matado. Nem sempre a morte acontece quando o corpo para de funcionar. Há muitas formas de assassinar alguém.

Recordo de quando eu era criança e era obrigada a tolerar na escola muitos apelidos ofensivos. Mas quando falo sobre isso sempre alguém diz que eu sobrevivi, que muitos sobreviveram, e que a vida é assim. Acontece que a vida não precisa ser assim, que cada um é um ser único, e que mesmo que todos sobrevivam e que apenas uma pessoa sofra profundamente com isso, já é hora de parar. Ninguém, ninguém mesmo precisa sofrer com um senso de humor que ofende, agride e mata. Para aqueles que choram e acham que o mundo ficou difícil demais porque não podem e nem devem mais fazer piadas sobre gordos, louras, gays ou mulheres agredidas, deveriam sentir orgulho de estarmos caminhando, mesmo que a passos curtos, para um mundo mais civilizado, com mais respeito e onde o amor ao próximo tenha realmente sentido.

Muitas pessoas, até famosas, já assumiram que, no passado, tiveram atitudes machistas, racistas ou homofóbicas. Artistas gravaram músicas, livros, roteiros ou poesias pelos quais lamentam-se. Uma salva de palmas para os que se arrependeram e sacaram que há coisas muito mais divertidas que humilhar os outros. Algo que, aliás, nunca teve graça nenhuma. Entre ser um chato que reclama do que é certo, correto e justo e uma pessoa que passou a ter empatia, escolha a segunda opção. Coloque-se no lugar do personagem principal de suas piadas grosseiras e perceba que dá para passar sem elas. Como diria a minha mãe, há muitos casos em que o silêncio é ouro.


Paula Garruth Colunista

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