A arte de viver - Jornal Fato
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A arte de viver

Recebo a proposta de um empresário e acato, apesar de algum ceticismo


Recebo a proposta de um empresário e acato, apesar de algum ceticismo - a permissão para desenvolver um trabalho de arte com os idosos da Vila Aconchego, mais precisamente pintura de quadros. Questiono sobre as dificuldades da maioria e ele retruca: - Todos pintarão, alguns apenas rabiscos, outros traços mais distintos e os aptos farão o acabamento. Abro o espaço para que desenvolva seu projeto, que segundo ele foi delineado nos corredores do hospital em que estivera internado. Ofereço a biblioteca para acomodar seu material e toda área da Vila Aconchego para desenvolvê-lo. É norma da nossa família estarmos sempre de braços abertos, para acolher o que possa beneficiar os nossos idosos.

E num piscar de olhos o empresário adentrou munido de 15 enormes telas, inúmeras tintas e pinceis. Não imaginava tanto arrojo e confiança, e pensei: - O cara é louco ou um visionário! E a Vila virou um alvoroço só, idosos pintando pelos corredores, mesas, sofás, e o instrutor, o próprio empresário, no meio da confusão orientando e analisando o talento de cada um. E fui descobrindo seus outros talentos, além de conduzir sua empresa e seus negócios: - É louco, visionário e é um artista plástico! E está fazendo muito bem aos idosos. Uns pintam, outros borram, e alguns evoluíram tanto que foram destacados para os acabamentos. E os que borram continuam pintando porque de cada borrão surge uma pedra, um galho, uma folha. E o empresário não coloca suas mãos em nenhuma obra, apenas entrega a tela riscada e a paleta de tintas, e deixa por conta da imaginação de cada um. E vão surgindo as obras prontas e ele as leva para emoldurar e o resultado é impactante. São perfeitas, retratam a natureza - vegetação, água, céu, pedra, tudo muito harmonioso e de uma beleza incrível. Sou leiga, porém sei admirar o que é belo!

E alguns fatos vão se aflorando enquanto o projeto se desenvolve: - Uma senhora de 91 anos, que fora marchand no passado, e sabe valorizar obras de arte, se revela uma grande pintora e fica responsável pelos acabamentos. E reconheço que a produção não pode ficar restrita aos muros da Vila Aconchego, onde serão apresentadas ao público num vernissage. A partir daí irão para os corredores do Shopping Sul e finalmente para leilão, cuja renda cobrirá parte das despesas, e serão revertidas à manutenção de outros projetos sociais. Grata Gilson Rosa, por sua loucura, e por levar arte e vida para nossos idosos!

 

Marilene De Batista Depes

 


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