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Não me dou bem com gavetas, acho-as traiçoeiras, dissimuladas, escondidas


Não me dou bem com gavetas, acho-as traiçoeiras, dissimuladas, escondidas que estão no corpo de algum móvel com todas as nossas coisas importantes ( e até as desimportantes ) feitas reféns de suas pequenas dimensões.

Todo dia você abre alguma gaveta para procurar algo e esse algo nunca está lá. Mas você vê sempre um outro algo que não precisa. Até o dia em que precisa deste algo e corre cheio de segurança à gaveta, abre com aquela firmeza que só a certeza dá aos idiotas e a coisa não está lá. E você para e pensa, abobalhado: mas não tem nem duas horas que eu abri essa gaveta e a coisa estava aqui...

Não se pode confiar em gavetas. Travam quando querem, abrem sozinhas no meio da noite para acertar tua canela ou teu dedo mínimo, trocam suas coisas de lugar em uma permuta entre gavetas que desafia as leis da física, mais próximas que estão do sobrenatural, da transmutação dos elementos, da alquimia e da feitiçaria.

Não me dou bem com gavetas. Elas expõem, a mim mesmo, a minha incompetência em organizar coisas já que não aceitam o modo prolixo como jogo meus pertences, minhas roupas, meu dia a dia em seus interiores na esperança de que elas, as gavetas, façam por mim a arrumação que não consigo fazer.

Cada gaveta aberta é como uma boca risonha e irônica apontada em minha direção.

Cada gaveta revirada é um corpo que guarda em seu interior o coração delator de Poe pronto para me enlouquecer e me fazer gritar de culpa.

Sim, confesso, não sei arrumar uma gaveta, não sei me organizar em um espaço tão ínfimo. Mas a culpa não é minha.

É tudo um complô das gavetas. Posso ouvi-las sussurrando à noite, planejando estratégias para me enlouquecer.

Mas não vão conseguir. Hoje tirei tudo das gavetas e espalhei pelo chão.

Acho que resolvi o problema.

 


Leandro Vieira

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