Cachoeiro em sentidos - Jornal Fato
Especial

Cachoeiro em sentidos

Rubem Braga, dentre muitas outras paisagens e sons do outrora pequeno Cachoeiro


Foto: Arquivo/Fato

Rubem Braga, dentre muitas outras paisagens e sons do outrora pequeno Cachoeiro, escreveu a crônica chamada Quinca Cigano. Nesta, o cronista narrou os encantos e os segredos da Fábrica de Pios "Maurílio Coelho", patrimônio histórico e cultural desta cidade que, desde 1903, transforma fragmentos toscos de madeira em pios, ou seja, em instrumentos de sopro capazes de reproduzir os sons de diversas aves da bfauna brasileira.

Rubem, em Quinca Cigano, diz que a família Coelho, que criou os reprodutores sonoros, faz, em segredo, até mesmo pios de chamar mulher. Apesar de eu ter sido seduzida por um dos coelhos, desse pio, graças a Deus, ainda não ouvi. Será?

Além dos sons das aves, o cronista desenhou o ruído das águas do encachoeirado Rio Itapemirim e, em várias crônicas, reportou suas lembranças de infância. Estas carregadas dos sons, das paisagens, dos cheiros e dos gostos que lhe remetiam a essa querida cidade. Vê-se o que se extrai de um de seus escritos acerca de Cachoeiro: "sombras, murmúrios, vozes da infância, preás, mandis e sanhaços; gosto de ingá na ilha do rio, fruta-pão assada com manteiga, fumegante no café da tarde, lagostins saindo das locas e passeando na areia nas tardes quentes, piaus vermelhos, lua atrás do Itabira, [...]"

Embora, por aqui, ainda habitem cidadãos saudosistas do tempo que jamais voltará, Cachoeiro de Itapemirim já vive a maior idade. Assim, quem o conheceu há décadas atrás já não consegue distinguir muitos dos locais que lhe ficaram na memória pessoal e/ou internalizados em manifestações artísticas e culturais.

Apesar disso, hoje, com mais de 220.000 habitantes e consideráveis mudanças estruturais, comportamentais e políticas, ainda é possível enxergar, mesmo que de leve, o encachoeiramento do rio Itapemirim que, há poucos dias, se mostrou rebelado contra seu povo.

A despeito dessas grandes mutações sofridas, a visão ainda nos permite ver intocáveis alguns remanescentes dos dias passados: a Igreja Nosso Senhor dos Passos (Matriz Velha); a Ponte de Ferro, cujo trem foi substituído por carros e motos; a Estação Ferroviária, que nos lembra que, um dia, veículos não circulavam no centro da cidade; o Teatro Rubem Braga, que nos remete ao berço cultural, característica local; a Casa dos Braga, onde nasceu o cronista Rubem Braga; a Fábrica de Pios e, ..., a casa do Roberto Carlos cuja voz eternizou a canção "Meu Pequeno Cachoeiro", escrita por Raul Sampaio.

O que dizer de Cachoeiro de Itapemirim? Que se tornou grande; que traz a paisagem de outro dia muito alterada; que conseguiu ficar ainda mais quente; que...; que, apesar de tudo, continua exalando cheiros únicos; gerando artistas diferenciados; sussurrando os sons das águas do rio que corta a cidade, dos pássaros que por aqui voltaram a povoar e dos "pios" que, passados 117 anos, ainda são produzidos no mesmo local que, para chegar, impõe a travessia da ponte da Ilha da Luz, onde foi inaugurada, em 1903, a primeira usina elétrica da região.

Isso sem falar dos sabores diversos que se extraem da culinária, a cada dia, aperfeiçoada e das frutas que, direto do pé, ainda conseguimos, disputando com as aves do céu, nos lambuzar após pequenos furtos que, praticados nos galhos que vazam de inúmeros quintais, nos presenteiam com manga, goiaba, cajá, jabuticaba, acerola, amora ...

O tempo passou, os sentidos humanos percebem diariamente alterações, os cidadãos se transformam, contudo, Cachoeiro de Itapemirim continua sendo única, especial e, mesmo crescida, ainda é conhecida como a Capital Secreta do Mundo e a Pequena Cidade, poetizada pelos quatro cantos da Terra.

 

        

 Katiuscia Oliveira de Souza Marins

 


Katiuscia Marins Colunista/Jornal Fato Advogada e professora

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