Vereador do Zumbi é cortejado para vice - Jornal Fato
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Vereador do Zumbi é cortejado para vice

Nesta entrevista, Sandi fala sobre o negro na política, o preconceito e a violência no Zumbi, avalia os colegas de Câmara e o prefeito Victor Coelho


Se o Zumbi tem população maior do que de muitas cidades capixabas, o vereador Rodrigo Sandi (Pode) atua como se fosse o prefeito daquela comunidade. Ele não tem a caneta para dar as ordens de serviço, mas sabe como poucos trabalhar para conquistar o que deseja.

O bom trânsito nos meandros políticos, somado ao fato de ter 80% de seus votos no bairro mais populoso de Cachoeiro de Itapemirim acabaram por torná-lo um dos mais assediados possíveis candidatos a vice-prefeito. Num período pré-eleitoral com dez pré-candidatos a prefeito, quatro já o procuraram para oferecer lugar na hipotética chapa. Ele, por enquanto, resiste.

Na entrevista que segue, Sandi fala sobre o negro na política, o preconceito e a violência no Zumbi, avalia os colegas de Câmara e o prefeito Victor Coelho. Trata de um extrato da entrevista que concedeu na última sexta-feira, ao jornalista Wagner Santos.

CÂMARA E PLANO DE CARGOS

Atendendo até o clamor dos servidores que já não aguentam mais essa novela do Plano de Cargos e Salários, nos próximos dias a Câmara vai colocar esse projeto para votação. Fico feliz de trabalhar com essa Câmara atual. Dinâmica. De vereadores que querem trabalhar. Cachoeiro está bem representado. Uma prova disso é que os projetos não são votados de qualquer jeito. São muito bem avaliados. Passam nas comissões. É uma Câmara que quer ver a cidade crescer. Quer ver os projetos darem certo. Ninguém está ali para travar a cidade e o prefeito. Acho legal quando chega um projeto do Executivo, principalmente, como esse do Plano de Cargos e Salários, que vai mexer diretamente na pessoa, na família do servidor e ele tem que ser avaliado. A gente sabe que muitas pessoas vão ter um salário maior, e outros menores, alguns nem terão muita coisa. Houve pressão das categorias para votar logo. Entretanto, a Câmara não vai por pressão. É centrada. O presidente Alexon está conduzindo muito bem a sua presidência, a mesa diretora.

 

NEGO NA POLÍTICA

Além de negro, sou morador do bairro com a maior população de Cachoeiro e que tem o nome Zumbi, o guerreiro Zumbi dos Palmares. Mas eu acredito muito na oportunidade. Quando colocamos nossa candidatura a vereador, naquele momento não pensamos em questão de raça ou de cor. Colocamos projetos e ideia. E acho que é por aí. Tem que esquecer um pouco de onde se vem e mostrar para a população que você é negro, mas você pode chegar a qualquer lugar. Temos negros juízes, médicos, prefeitos, governadores... hoje sou o único. Tínhamos lá nosso saudoso Buiú (morreu em 2017, em decorrência de um AVC). Ele era o ouvidor racial, depois tive que assumir por ser o único negro. Mas penso que temos que rever essa situação, na qual o negro é racista com ele mesmo.  Muitas vezes um negro não vota no outro. Existe muito disso. Está na hora dos negros se unirem mais. O negro pode, é capaz. Sou a prova viva disso. Estou na Câmara representando muito bem a ouvidoria de igualdade racial e a cidade de Cachoeiro de Itapemirim.

 

ATUAÇÃO PELO ZUMBI

Eu cheguei à Câmara sabendo o que pretendia buscar. Melhorias, principalmente para o bairro Zumbi, onde eu moro e tive 80% dos votos. Eu já sabia as dificuldades que havia no nosso bairro. E, ao invés de ficar no gabinete, mexendo com papel e documentos, fui para a rua ver a necessidade da população e buscar ideias. Apresentamos vários projetos ao prefeito. Alguns já em execução. Meu modo de trabalhar é ir para a rua, em comunidades onde sou convidado e assim conseguir resolver várias situações, até de gestores passados.

Eu conheço todas as necessidades do zumbi. A população se acostumou com vereadores que faziam doações, de cestas básicas, até de caixão. Mas eu vi que minha população não pode ficar à mercê disso. O bairro ficou sem melhorias, sem crescer e se desenvolver. O Zumbi é uma cidade. Tem população maior que muitas cidades, com vereadores e prefeito. Vi que a necessidade era de obras. De coisas para dar dignidade à população. A pavimentação dos becos, é uma questão que pode ser pequena para o gestor, mas é grande para quem recebe aquela melhoria. Olha há quantos anos aquela população de mora em becos e travessias vivia na lama e na poeira... nós temos quadras poliesportivas que precisam apenas ser reformadas. Isso também vai ao encontro da questão da violência. Esses jovens, que hoje estão dentro da violência, poderiam ser hoje jogador de futebol, de vôlei, se lá atrás tivessem recebido oportunidade, uma estrutura física realmente funcionando, com professores, educadores, palestrantes... se tivesse cortado na raiz, talvez hoje não estivéssemos perdendo tantos jovens mortos, presos, envolvidos na questão errada da vida. Estou no caminho certo e as pessoas vão ver isso lá na frente. Quero mostrar o outro lado da política. A nova política. Vereador é para fiscalizar e legislar, mas também para levar melhoria para a comunidade. A gente realmente focou nosso mandato dentro da comunidade, para fazer do Zumbi exemplo para outros bairros e então poder focar neles também.

 

VIOLÊNCIA NO ZUMBI

Desde o começo do mandato sempre cobrei do Executivo, do governo do Estado, deputados e senadores que o Zumbi precisava de um olhar mais carinhoso das autoridades. É um bairro populoso e atualmente no país há mais de 14 milhões de desempregados. É o bairro com o maior número de pessoas sem emprego. Há jovens na faixa de 15 a 25 anos que nunca tiveram oportunidade de emprego. Primeiro vem a questão do preconceito. Segundo, a escolaridade. Terceiro a qualificação. A gente acabou perdendo alguns jovens para o lado do mal. O Zumbi se tornou o bairro mais violento por questão de alguns governantes, empresas e setores não darem oportunidade ao morador do bairro. Hoje 99,9% dos moradores são pessoas de bem, pessoas trabalhadoras. A gente clama para que a sociedade olhe para o Zumbi com mais carinho e menos preconceito.

Recebi duas jovens, de cor negra, qualificadas. Que terminaram os estudos, mas na hora de entregar os currículos, viram onde moravam e ali já veio o preconceito. Elas ficaram constrangidas, choraram, ficaram magoadas. Esse é o retrato de hoje. Em relação à violência, vai muito da sociedade, de ver o Zumbi como um bairro perigoso, mas esquece que lá 99% são pessoas de bem.

 

CIDADE MAIS BONITA

Se você olhar para Cachoeiro, verá uma cidade cinza. Escura. Feia. Quando coloca o colorido numa escada, não é simplesmente tinta que vai ali. Dá outra vida para a escadaria e, ao fazer isso, nova vida para a comunidade. Um exemplo foi na Aristides Campos, onde passam milhares de carros por dia. Ninguém olhava para aquela escada.  Hoje (depois de pintada) as pessoas passam lá e tiram fotos. São pequenas coisas. Como os canteiros que estão embelezando a cidade. Cachoeiro merece ser uma cidade bonita. Limpa. A gente gosta e puxa esse gancho para começar a fazer dentro das comunidades. A primeira coisa que o gestor público deve fazer é trabalhar para o povo pobre. O povo do alto do morro, porque é dali que saem os votos. É ali que tem que dar dignidade. Devolver as calçadas ao cidadão e fazer o rico andar de ônibus.

 

PREFEITO VICTOR COELHO

Ele pegou uma dificuldade no começo. Muito maquinário quebrado. Frota defasada. Falta de recursos para trabalhar. Isso atrapalhou um pouco o trabalho do prefeito. Precisou organizar a Prefeitura. Colocar as contas em dia. Mas estou vendo que as coisas começaram a caminhar. Os bairros começaram a receber grandes obras. Acredito ainda que tem muito a ser feito, mas o prefeito achou o caminho e quem vai ganhar com isso é a população de Cachoeiro. Acho que todo prefeito merece ter dois mandatos, pois com um só não se consegue trabalhar, pois são dois anos para consertar o que recebeu. Quem está fora, acha que é fácil. Tem muita coisa boa para acontecer.

 

COTADO PARA VICE-PREFEITO

Eu gosto muito de ouvir. Debater. Ver qual o melhor caminho. Fico feliz. Estou com dois anos e meio de mandato. Esse assédio me dá a leveza de que estamos no caminho certo. Já conversei com quatro pré-candidatos a prefeito que já se colocaram o carinho de terá mim como vice. A gente mora no bairro de maior população de Cachoeiro. A gente é negão. Tem um trabalho dentro da cidade. E agora sendo convidado a ser vice-prefeito de uma cidade onde você um dia vendeu picolé, lavou carros... isso me deixa muito feliz, mas não posso tomar nenhum tipo de decisão agora. Mas hoje minha pré-candidatura é à reeleição.

 

PROJETOS

O Zumbi precisa de muitas melhorias ainda. Vamos ter lá a maior unidade de saúde do sul doestado, através de uma emenda da deputada federal Norma Ayub, o prefeito entrou com a contrapartida. Vai custar quase R$ 4 milhões. Terá três andares. Temos várias quadras que serão reformadas, para a gente colocar esses jovens para ocupar sua cabeça. Temos o projeto Frei João, que atende quase 300 crianças do bairro. O Zumbi está no caminho certo. E não podemos esquecer de um projeto nosso, que foi muito bom para a sociedade em geral, que é o agendamento online para as pessoas tirarem identidade. Antes, as pessoas dormiam na fila. Pudemos apresentar esse projeto ao prefeito, que acatou a ideia e colocou para funcionar. Ninguém mais tem que dormir na fila. É dignidade para a população. 

 

Frases

"E agora sendo convidado a ser vice-prefeito de uma cidade onde você um dia vendeu picolé, lavou carros... isso me deixa muito feliz, mas não posso tomar nenhum tipo de decisão agora" 

"Quando colocamos nossa candidatura a vereador, não pensamos em questão de raça ou de cor. Tem que mostrar para a população que você é negro, mas você pode chegar a qualquer lugar" 

"O Zumbi se tornou o bairro mais violento por questão de alguns governantes, empresas e setores não darem oportunidade ao morador do bairro"

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