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Saí do trabalho meio aérea, andava pelas ruas movimentadas como quem anda nas estradas emburacadas


Saí do trabalho meio aérea, andava pelas ruas movimentadas como quem anda nas estradas emburacadas. O dia a dia corre antes mesmo de nós alcançarmos a esquina. Milhares de pessoas caminhando com seus rumos traçados. Milhares de carros buzinando a todo o momento, enquanto o mundo passa lá fora.

Quem tem tudo, às vezes não tem nada e quem não tem nada, às vezes tem tudo. Tudo o que se precisa para se sentir bem e realizado em plena felicidade naquele momento, é ser, ou tentar.

Ao final, na despedia do sol e nas boas-vindas da noite, alguém desconhecido, e que apesar de todas dificuldades não deixou a humildade de lado ao dizer constantemente para quem passasse: "picolé R$ 1,00 real" ou talvez quando se referia a outros: "sabia que o ch é um dígrafo e tr é um encontro consonantal?, esse português é mesmo uma complicação, mas eu gosto e gosto de passar aos outros". Palavras essas difíceis de serem esquecidas, ainda mais para quem leciona com toda dedicação.

Enquanto esperava o ônibus passar, um homem sentou-se ao meu lado e começou a conversar. Suas palavras saiam como um pedido de ajuda. Ele só queria que alguém lhe desse atenção. Não precisava responder. Bastava ouvir. Mas quem procura atenção, em um ponto de ônibus, onde ninguém tem tempo para nada? Talvez ele estivesse cansado de ir aos lugares onde logicamente deveria receber atenção e não obteve. Engraçado, eu estava ali pronta para ouvir e falar se assim fosse. Mas eu também queria que alguém me ouvisse, porém não queria exprimir nada. Quem sabe alguém não notaria sem eu sequer dizer uma palavra? - Não, não notariam.

E em meio a meus pensamentos, ele olhou nos meus olhos, sorriu e disse: -  obrigada por me ouvir, era do que precisava. Você precisa do mesmo, guarda coisas subentendidas ai dentro. Deixe que os ventos passageiros levem esses pesos para onde quiser. As folhas secam caídas no chão já não tem mais importância, deixe-as livres, agora aprecie as que estão por vir. 

Meu ônibus chegou, entrei, sentei, me acomodei e antes que eu não pudesse enxergar mais os dois senhores, percebi que continuavam com o sorriso no rosto diante da multidão preto e branco. A simplicidade realmente mora ao lado. Numa esquina qualquer ou no coração das pessoas.


Caroline Fardin Araújo Professora de Língua Portuguesa

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