Primeiras Estórias - Jornal Fato
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Primeiras Estórias


Ando com muitas saudades das pessoas que ficaram encantadas. Das próximas e queridas, e das que só conheci através da literatura.

A inquietude, ao mesmo tempo em que às vezes me move, pode provocar paralisias por horas a fio. Desfilam personagens dos autores que povoaram minha infância. Sem-Pernas, Pedro Bala, João Grande, Volta Seca e Tereza Batista, de Jorge Amado.  Um mundo cercado de injustiças, mas encarado de frente pelos personagens. Profanos demais para uma menina criada na igreja evangélica. Mas lidos sem nenhum preconceito.

Chicó e João Grilo conquistaram minha simpatia, apesar de estarem sempre procurando um jeito de conseguirem o que queriam a quase qualquer custo. Parecia sempre por uma boa causa. Seriam os mentirosos do bem, como diria o autor da peça O Auto da Compadecida, Ariano Suassuna, defensor ardoroso de seus protagonistas.

Como não admirar a inteligência do Visconde de Sabugosa, desejar saborear as delícias da Tia Nastácia, tomar sustos com as aventuras de Pedrinho e com a Cuca, e me irritar com o atrevimento da boneca Emília e a gula do Marquês de Rabicó. Narizinho, Tio Barnabé, o Saci, Quindim e tantos outros povoaram minha primeira infância. Nem vou falar do Jeca Tatu, que dele ouvi pela primeira vez através do meu pai.

Como não me comover com Zezé e seu irmão Luiz, sua família pobre, com mãe trabalhadora e pai desempregado? A história de muitas famílias brasileiras da atualidade retratadas por José Mauro de Vasconcelos no livro O Meu Pé de Laranja Lima. A importância de uma grande amizade permeia todas as histórias.

O suspense de tirar o fôlego dos assassinatos nos livros de Ágatha Christie, a leitura quase sem pausa para chegar ao fim da história e ao assassino, mesmo que para isso fosse necessário varar a noite. E o prazer de conseguir chegar muitas vezes ao assassino ainda no meio do enredo. Coisa inimaginável nas primeiras histórias.

Machado de Assis e a dúvida eterna sobre a fidelidade de Capitu a Bentinho, em Dom Casmurro, Não tenho dúvidas que a personagem é a mais discutida do autor. Joaquim Manoel de Macedo e sua Moreninha, que através de um camafeu recupera uma história da infância, num romance que li num fôlego só. Com vontade de estar na ilha, que a mim parecia mágica.

Riobaldo e suas inquietações, lutas, medos e amor reprimido em Grande Sertão: Veredas, um dos mais difíceis que já li. Do universo roseano me lembro também de Sagarana e Primeiras Estórias. As injustiças sofridas pelos personagens de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Nada que tenha ficado definitivamente no passado. Infelizmente a história ainda se repete Brasil afora, e não apenas no nordeste brasileiro.

Os encantados nos deixaram seus personagens e muitas saudades. De minha parte, quero contato com velhas e novas histórias. O aconchego gostoso dos meus livros e autores prediletos. E quem sabe traçar novos caminhos permeados de aventura e emoção. 

 


Anete Lacerda Jornalista

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