O que não é verdade - Jornal Fato
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O que não é verdade


Vivemos em um tempo onde o que não é natural está cada vez mais presente, como, por exemplo, um belo cabelo cacheado, bagunçado ou com volume. O formol parece, cada vez mais, igualar as pessoas em um mesmo patamar de liso-escorrido-arrumado-nada fora do lugar. Nada contra. Se o cabelo dos seus sonhos está ao alcance de suas mãos e de seu bolso, por que não o ter? E não só os cabelos andam esticados. Olhos, bocas e testas ganham injeções cada vez mais modernas a fim de que os sinais do tempo não fiquem tão aparentes. Acho ótimo também, embora ainda não tenha me rendido. Uma beleza a pele bem cuidada com pequenos retoques que não pareçam uma máscara de cera. Viva a tecnologia e a ponderação na hora de usar! E a onda segue em próteses, plásticas, tira-aqui-e-põe-ali e bem rapidinho porque a lei da gravidade é implacável. Um pouco de vaidade é bom, todo mundo gosta e cai muito bem, desde que não escravize ou limite a vida.

Uma pena é quando essas mudanças são levadas a outro plano. Ao do que não pode ou não deveria ser mudado. Transformar a tristeza, a dor e a decepção do dia-a-dia em uma felicidade urgente e aparente custa cada vez mais caro, causa cada vez mais danos ao corpo e, no entanto, é cada vez mais comum. A cada dia mais e mais pessoas recusam-se a viver seus lutos e momentos difíceis. Lotam consultórios e farmácias em busca de curas que deveriam vir com o tempo e com a formação da consciência de que a vida é cíclica, e que há um tempo para todas as coisas.

Uma amiga me relata que, por causa da doença da mãe, ela está tomando diversos remédios para depressão. Eu não sou médica e não estou aqui para discutir diagnósticos. Mas o normal é que a doença de uma mãe ou de qualquer outro ente querido nos cause uma tristeza imensa. Uma tristeza que precisa e pode ser vivida, natural que é. Afinal, tristeza não é doença. É momento. Vai passar. Sempre passa, cedo ou tarde.

Nesse mundo atribulado, às vezes quebrar a unha basta para nos transbordar. Vamos chorar pela unha quebrada por muito ou por pouco tempo, até que tenhamos consciência de que era apenas uma unha. Pílulas não farão a unha crescer. Elas farão com que você se conforme com aquilo ao mesmo tempo em que intoxica seu corpo. Suspenda o medicamento e verá que a dor continua em você, ela estava apenas escondida.

Em algum momento da vida qualquer um de nós estará endividado, preocupado, solitário ou carente. E mais. Em algum momento todos ficaremos desesperados. Mas vamos deixar que médicos, clínicas e remédios estejam disponíveis para os realmente doentes. Procuremos soluções, amigos, família, igreja, trabalho ou que mais estiver ao nosso alcance. Ser feliz é bom e todo mundo quer, mas tem que ser de verdade. Os melhores momentos da vida não são vendidos em cápsulas nem em gotas. São de graça e moram na sua capacidade de superar, sacudir a poeira, dar a volta por cima e sorrir.

 


Dayane Hemerly Repórter Jornal Fato

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