O dia em que não usei capacete - Jornal Fato
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O dia em que não usei capacete

Coisa do final da década de 1970


Coisa do final da década de 1970, ia eu - como Investigador de Cadastro - fazer meu serviço, que consistia em, mesmo sem ser contador ou técnico no assunto, analisar balanços anuais de empresas clientes do Banco do Brasil; verificar como pagavam seus compromissos e, ano após ano, ainda que conhecesse a empresa, perguntar a três outros nossos clientes, sobre a empresa "investigada" (códigos pares denotavam empresa boa no item, código impares, o contrário, claro. Nem sei porque estou sendo detalhista com meus leitores sempre inteligentes).

Eu queria mais informações; coloquei na cabeça que se visitasse as empresas, boa parte delas do ramo de mármore e granito, geralmente serrarias, eu poderia exercer melhor meu trabalho. Foi aí que aprendi que conversa olho no olho e visita in loco, são instrumentos mais poderosos e reveladores para quem quer saber das coisas, no caso, se a empresa era aquilo que apresentava no papel (no papel todos somos ótimos) ou, apenas estava arrumando jeito de aparecer bem para o Banco e, assim, pegar mais empréstimos, descontar títulos e outras atividades mais. Os juros do Banco do Brasil eram bons, só um pouco acima da inflação, razoável para quem precisa produzir bons produtos e cumprir seus compromissos com os empregados.

Fui à Braminex, na época dos pesos pesados da indústria de mármore e granito, com inúmeras jazidas e boa quantidade de teares, instalados ali na rotatória Rubem Braga, onde tem aquela construção para abrigar a polícia - bem perto do Supermercado Perim.

Fiz tudo o que tramara fazer. Já estava satisfeito e me preparava para ir embora, quando o contador da empresa, Sr. Otto Nunes Machado, pai do amigo João Moraes (que era criança, na época), resolve me fazer um agrado, agrado normal, diga-se: - mostrar a indústria em funcionamento - pouca gente sabia como era.

Naquele tempo, serraria de mármore e granito era espécie de monstro sagrado, poucas empresas tinham e poucas tinham na quantidade que a Braminex possuía. Acho que uns vinte teares, num espaço não tão grande.

Aceitei a ideia - ver de perto o que é tear e como ele serra pedras. Para serrar um bloco de mármore levavam-se uns 10 dias; se granito cinza, duro como o cão, eram mais de duas semanas.

Aceito o convite, mas a empresa tinha protocolos a cumprir. "Seo" Otto vira pra mim e diz: - Mansur, para ir à serraria tem que usar capacete, questão de segurança, e partiu ele para pegar um pra mim. Aí ele deu uma parada e logo entendi porque ele parara frente aos cabides de capacetes. Procurava um que coubesse na minha cabeça - olha um, outro, outro mais; constrangido vira pra mim e diz: - "Olha, você não precisa de capacete não", enquanto passava o capacete para o colega que me acompanhara na visita.

Entendi: - para não me chamar de cabeçudo, no sentido de cabeça grande, que sei que tenho, ele preferiu cortar volta e me levar logo ao pátio, sem capacete.

Até então, nunca usara um capacete e continuei, nos próximos 40 anos, a não usar. Até que um dia, deste mês de abril, fui a uma empresa da cidade e, primeira vez na vida, meti o capacete na cabeça, coube certinho, mas isso é história para outra crônica.

 

O Sucesso da Exposul Rural - ES

A Exposul Rural, feira agropecuária, e de negócios, e de turismo e de artesanato e de cafés de qualidade, e de muita coisa boa, que se realizou no Parque de Exposições de Cachoeiro de Itapemirim, deu prova efetiva de que não é exatamente dinheiro que faz as coisas melhores acontecerem; ajuda, mas não é o principal.

O que faz as coisas acontecerem de verdade é a experiência e a inteligência local, voltada para a cidade e região, e não para interesses de fora.

Nisso o Sindicato Rural local, dirigido pelo Wesley Mendes, deu show de competência, alargando enormemente a experiência que já acontecera em 2018, por ele mesmo.

Espero que o exemplo frutifique e que a prefeitura, com os cofres abarrotados, como sempre, tome o Wesley Mendes como exemplo padrão e esqueça festeiros que vêm de fora.

É "só" a opinião de quem escolheu essa cidade para viver definitivamente, chegado há 53 anos. Parabéns Sindicato Rural, parabéns Wesley. 2020 está chegando.

 

Crônica de 14 anos passados

Sob o título "A Nova Data da Exposição Agropecuária", publiquei em maio de 2005 a crônica abaixo (texto adaptado apenas em detalhes não essenciais):

Pode ser que a 59ª Exposição Agropecuária de Cachoeiro de Itapemirim, à qual veio se juntar a 1ª EXPOSUL - Exposição do Agronegócio do Sul Capixaba, realizada de 11 a 15 de maio deste ano, não tenha sido grande sucesso de público. A ausência da massa deve ser creditada à ligeireza com que foi organizada a Exposição, num afogadilho que causou surpresa. Mas não me parece haver dúvida de que foi semente importante a desvinculação da festa do agropecuaristas da festa de Cachoeiro (Festa de São Pedro), quando o parque de exposições é tomado por shows musicais populares - de gente de fora - que tiraram toda a graça da exposição de animais e de outros atrativos rurais.

O que deve ficar claro é o fato de que seus organizadores tiveram grande coragem. Essa coragem, com o correr dos tempos, premiará a iniciativa, trazendo novo alento ao interior e ao produtor rural.

A expansão da exposição municipal, transformando-a em regional, também trará frutos em curto prazo, pois se estará estreitando laços regionais cada vez mais necessários e definitivos. É que o mundo de hoje não cabe promoção de um só município; cabe sim promoção regional, quer seja da agricultura e da pecuária, quer seja de qualquer outro ramo da atividade econômica.

Ganha Cachoeiro e ganha o sul do Espírito Santo uma nova data comemorativa, onde também ganharão os comerciantes e todas as atividades econômicas. Começa a se criar na região movimentação que se estende por diversos meses. Não é mais só a Festa de Cachoeiro, não é mais só a Feira do Mármore, como não é mais só o Festival de Alegre, ou o Festival de São Pedro de Itabapoana ou a festa religiosa de Castelo. A EXPOSUL vem se juntar ao calendário e, cada vez mais, aumentam as possibilidades de a cidade e a região receberem levas de visitantes que trazem dinheiro e emprego para muitos.

Essa nova iniciativa e outras que deveriam vir, devem servir de base para novos planejamentos. Só assim a região poderá crescer com mais espontaneidade. Novas festas e novas movimentações, preenchendo o calendário de todos os meses, por certo que - de cara - possibilitarão a manutenção da rede hoteleira e de restaurantes, que funcionem durante o ano inteiro. Principalmente no caso dos hotéis, quanto mais eles existirem, quanto mais eles tiverem alta taxa de ocupação, tanto mais serão favorecidos novos eventos. Aliás, uma das causas das críticas à permanência da Feira do Mármore e Granito em Cachoeiro é a ausência de infraestrutura hoteleira o que, mesmo não sendo verdade, tem tido grande aceitação, como se verdade fosse.


Higner Mansur Advogado, guardião da cultura cachoeirense e, atamente, vereador

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