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Mulher de fases

Quase desconfio que sou de fases, como a lua


Quase desconfio que sou de fases, como a lua. Em alguns momentos, a própria lua cheia, iluminada pelo sol, que por um tempo está voltado totalmente para mim, o que me faz sentir completa e absoluta. Reenergizada. Ressignificada. Até poderosa. 

Mas como nem tudo é perfeito, existem outras em que perco o brilho no olhar e o sentido da vida. A única luminosidade perceptível é a da pele oleosa castigada pelo calor intenso. Nesses dias sou 100% lua minguante. Sinto até que pedaços de mim ficaram definitivamente pelo caminho.

As forças parecem diminuir, como que sugadas por um vampiro. Logo eu que nunca acreditei no sobrenatural. Tudo fica desimportante.  Nesses dias quase sombrios, parece que as migalhas bastam. Indócil, tento emergir e buscar novo fôlego. Sinto a luminosidade diminuir ainda mais e entro na minha fase lua nova.

Tropeço nos sonhos e desejos, insisto, caio, levanto, recomeço, mas o caminho não tem luz suficiente. Continuo insistente em busca da claridade plena, que me rejuvenesça corpo, alma e espírito. Sempre acho que vou chegar lá, fragmentada ou não. Aquela velha e irreparável mania de ter fé na vida. Tão eu.

O esforço supremo me empurra por mais uma etapa da longa jornada. Entra ano, sai ano, a história se repete, por mais que queira mudar a ordem natural das coisas. Não posso, não consigo. Preciso, por força do universo, respeitar o que está posto. Tenho direito ao contraditório.

Os dias se renovam e aos poucos vou enxergando luz no fim do túnel, parcial, mas suficiente para reesperançar. Aí sou lua crescente, em fase de transição. Metade de mim é mistério. Indecifrável. A outra é clareza escancarada, incapaz de subterfúgios ou máscaras. Visível a olho nu. A quilômetros de distância.

E pela vida afora é um tal de recomeço, a mesma eu com aspectos tão distintos, que quase canso de mim. Mas logo sinto que em breve serei novamente inteira, iluminada por completo, mesmo sendo uma metamorfose ambulante. Uma mulher que às vezes nem eu entendo, nem reconheço, por completo.

Apesar das fases, ora completamente exposta, em outras quase imperceptível, tamanha a descrição, a sensação mesmo é de excessiva lucidez e sobriedade. Mesmo em pouca luz, não quero tropeçar nos anseios e desejos.  Às vezes faço de conta que nada importa, quando o coração grita exatamente o contrário.  Entro, por forças que não são minhas, na mais profunda lua minguante.

Confesso que ainda não sei, mas acho que prefiro viver em transição, como a lua crescente. Mas como nada em mim é definitivo ou permanente, posso acordar amanhã desejando outra fase, outra etapa, outros sonhos. Sem amarras que me impeçam de alcançar os céus. Estrelado, numa linda e fresca noite de lua cheia.


Anete Lacerda Jornalista

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