Feridas eternamente abertas - Jornal Fato
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Feridas eternamente abertas


O nome da holandesa Zahira Leeneke Maus era desconhecido da maioria do povo brasileiro até recentemente. Coreógrafa, talvez nem fosse tão reconhecida em seu próprio país. Mas bastou uma denúncia de que sofreu abuso sexual do médium João de Deus para que fosse vista mundo afora. E infelizmente não em função de sua arte.

Zahira foi uma das primeiras a mostrar o rosto ao fazer o lamentável relato.  As outras deram depoimento, mas não quiseram se expor. A coragem da holandesa incentivou outras mulheres e quando escrevo, já passam de 500 o número de denúncias protocoladas no Ministério Público de Goiás e de outros estados brasileiros.

Mulheres e meninas com depressão, síndrome do pânico e outras doenças físicas, inclusive câncer, eram vítimas dos abusos e resolveram mostrar o rosto.  O "modus operandi" era semelhante e relatos de pessoas que não se conhecem provam que havia o mesmo ritual sexual envolvido na promessa de cura.

Se por si só o abuso em nome de Deus não fosse suficiente, sou surpreendida por posts toscos nas redes sociais questionando a veracidade dos depoimentos e culpabilizando as vítimas, o que não é novidade quando as denúncias envolvem mulheres. Mais que isso, sugerindo que as abusadas várias vezes gostaram e por isso voltaram ao médium goiano.

É lamentável ver comentários como esses partindo inclusive de mulheres teoricamente bem nascidas e inteligentes, que deveriam fortalecer uma luta que é de todas nós. Cada vez que uma mulher relembra fatos tão lamentáveis, se torna vítima mais uma vez. É de fato a revitimização e dor de pessoas que relembram o que talvez seja seu pior pesadelo.

Além da questão sexual, há um esquema podre e milionário do João, que em um dia movimentou R$ 35 milhões em uma de suas contas. Em outra busca, foram encontrados mais de R$ 400 mil em dinheiro no fundo falso de um armário numa das casas do líder religioso.

E ainda há quem ponha a mão no fogo por ele e acuse as mulheres de estarem mentindo. E não é a primeira vez que um religioso, também mercador da fé, destrói a esperança das pessoas que procuram cura física, espiritual e até emocional.

No dia 18 de novembro de 1978 o pastor Jim Jones envenenou na Guiana 908 fiéis, entre as quais 276 crianças. Ele misturou cianeto em suco de frutas e as pessoas beberam passivamente.  Quantas mulheres foram assediadas sexualmente e emocionalmente aniquiladas pelo João dito de Deus? Em mais de 40 anos, milhares certamente, Inclusive uma das filhas, que o acusa de estupro.

 O pior de tudo é que, apesar de tantas evidências, apenas uma das vítimas, abusada em outubro desse ano, verá o seu caso apurado, já que para todas as outras o prazo prescreveu. Isso porque até setembro desse ano o Código Penal Brasileiro estabelecia que as vítimas de crimes sexuais tinham o prazo máximo de seis meses para se manifestarem. Os estragos são irreparáveis. Meu sonho é que ninguém mais seja abusado em nome de Deus. 


Anete Lacerda Jornalista

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