Dá cá um abraço - Jornal Fato
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Dá cá um abraço


Sei que não és esse ódio todo que aparentas.

Nem essa fortaleza ou essa fúria.

Sim, daqui de longe eu consigo ver.

Por trás desse semblante de rancor há bastante dor, não é?

Por debaixo dessas palavras tão amargas há uma ferida em pus.

E sinto seu cheiro daqui.

Não adianta sequer tentar evitar o olhar, porque teu pranto seco está na tristeza de tudo o que dissestes.

Sim, eu consigo ver com uma precisão que machuca.

O teu filho que não liga há meses.

O exame do laboratório preso dentro do envelope há dias à espera da tua coragem para abri-lo.

A inesperada carta de demissão e as contas que não param de chegar.

O amor não correspondido. Inacreditavelmente não correspondido, eu sei.

A receita médica prescrevendo uma dosagem cada vez mais alta e de uma eficácia cada vez menor.

Essa solidão que às vezes parece sufocar-te.

A saudade que corta.

Essa maldita infelicidade profunda que corroeu tua vontade de viver ao longo do tempo.

E agora a impressão é de não haver mais tempo para corrigir o que quer que seja.

Olha, não vou te enganar.

É possível que não haja mais tempo, de fato.

Mas certeza mesmo só terás saindo dessa inércia absoluta que aprisiona teus dias.

Abandona esse presente tão ruim.

Apruma-te. Coloque aquela tua roupa preferida, talvez ainda sirva.

Ouça uma grande canção. 

Saia dessa zona de desconforto.

Deixa esse ódio de lado, ao menos um pouco.

Teu filho há de ligar.

O exame há de ter dado negativo.

O novo emprego há de chegar e tu hás de ouvir aquela voz de novo chamando o teu nome.

Teu sofá da sala há de ser usado depois de tanto tempo.

Até o remédio é capaz de voltar a fazer-te efeito.

E se nada disso acontecer, sentirás ao menos alguma forma de paz de quem tentou.

De quem deixou de se alimentar dessa raiva toda.

De quem conseguiu, depois de anos, libertar-se de todo esse fel.

Dá cá um abraço.


Leandro Vieira

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