Afetos e memórias - Jornal Fato
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Afetos e memórias


"A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo". Eduardo Galeano

 

Essa frase me cai como uma luva, num momento em que memórias afetivas, olfativas, táteis e gustativas me cercam, ora como borrões quase imperceptíveis, ora como traços firmes e marcantes que mostram quem eu sou, ou pelo menos, a pessoa que gostaria de me tornar, mesmo a essa altura da vida.

E se a memória de fato não perde o que merece ser salvo, como escreveu Galeano, quero junto de mim as melhores lembranças, que não necessariamente envolvem momentos glamourosos. A maioria é de tamanha simplicidade que talvez seja considerada desimportante.

Lembrei-me dia desses de quando nos mudamos para Cachoeiro. Tinha seis anos de idade e fomos atravessar a ponte da Ilha da Luz, ainda de madeira e cheia de buracos, que faziam tremer até os mais corajosos. Eu, que tenho fobia de lugares altos (e a altura até o rio naquele tempo parecia gigantesca) morria de medo, mas me mantinha firme, porque o meu irmão caçula tinha pavor da dita travessia. Eu ria, disfarçando a paúra, para não apavorar ainda mais meu irmãozinho.  

A piscina da Ilha, já próxima da extinção, nessa primeira infância, cercada de primos e amigos, levados pela minha tia, muitas crianças andando de bicicleta e aprendendo a se equilibrar nos patins no hoje Pavilhão da Ilha da Luz, os muitos pescadores ao longo das pontes e às margens do Rio Itapemirim, a travessia de barco a uma ilhazinha próxima à ponte que hoje leva à fábrica de cimento, tudo cercado de simplicidade e magia. Sérgio Damião tem razão. A cidade mudou.

Mas nostalgia de verdade é em relação ao meu Itapemirim e suas águas caudalosas, em que pesquei pela primeira vez, em que nadei e mergulhei como se aquele espaço fosse todo meu. Eu, meus irmãos, primos e amigos escolhíamos as encostas mais altas das margens para darmos nossos mergulhos, como se não houvesse perigo e nem amanhã.

Puro êxtase e felicidade. O mesmo que ando buscando nas coisas simples da vida. Mas não uma simplicidade qualquer. Quero coisas de tirar o fôlego e aumentar a frequência cardíaca. De fazer ruborizar de emoção quem ainda insiste em manter intacta a criança travessa em busca de novas aventuras.

Então, cada coisa que mereceu a prateleira do inesquecível está devidamente guardada. Os amigos da vida toda estão bem aconchegados do lado esquerdo do peito. E os novos têm espaço, com uma única condição: que sejam leves e gargalhemos juntos pela vida afora. De preferência contemplando o meu Itapemirim, não mais tão abundante, e também as minhas garças salpicando de branco as árvores rio adentro.

E peço apenas uma coisa. Permitam-me esse momento de puro egoísmo com o Itapemirim e as garças, que os sinto meus.  Afinal de contas, sendo já repetitiva, "felicidades se encontra em horinhas de descuido". E não abro mão de nenhuma delas. Quero, e muito, abundância e êxtase. Que o novo ano nos ressignifique e renove.

 


Anete Lacerda Jornalista

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