A viagem de trem (*) - Jornal Fato
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A viagem de trem (*)

Homenagem aos 115 anos da Estação Ferroviária


Por Solimar Soares

 

O misto era o trem de carga e passageiros - por isso "misto" - que vinha de Campos, à noitinha, com destino a Cachoeiro.

O apito indicava a hora exata da partida de Santa Teresa (hoje, Hermínia Soares, nome de minha avó). Foi ali, numa casa humilde, com água de bica e luz de lamparina, onde nasci e passei boa parte de minha adolescência.

Uma pancada no sino e começava aquele "bloc... bloc..." Era o barulho que fazia quando a roda do trem passava na emenda dos trilhos.

Já bem perto da estação de Cachoeiro, havia uns pontinhos, que piscavam. Mais um pouco, tudo claro. Não era mais luz de lamparina (luz artificial, a querosene, como havia lá em Santa Teresa); era luz elétrica. Eu já não estava mais na roça; agora, estava na cidade.

Ninguém viaja em segunda classe do misto porque quer. No meu caso, por exemplo, era por necessidade mesmo. A passagem era mais em conta porque o desconforto era muito maior. Na primeira classe, as bagagens ficavam num estrado, perto do teto. (Meu embrulho ia no chão, embaixo de minhas pernas). Na segunda classe, aquela luz, fraquinha, feito luz de vela!... Na primeira, que claridade! Na primeira, havia cadeiras individuais, numeradas e estofadas; na segunda, aqueles bancos enormes de madeira, régua sim, régua não, tomando toda a extensão do carro. Ali, cabia muito mais gente. (Quem fez aquilo deve ter pensado assim: "Se você não está satisfeito, desça, e vá a pé!).

Era muito arriscado pegar carona, no meio da estrada, sem ser descoberto. O condutor, sempre acompanhado de um fiscal, conferia o bilhete duas vezes durante a viagem. Não só conferia como cortava a passagem no meio, ficava com a metade e deixava a outra metade com o passageiro. Ou fazia um furo na passagem.

Mas a verdade é que eu costumava fazer aquele trajeto de dez quilômetros, a pé, mas tinha que acordar muito cedo - às quatro da manhã -, porque minha aula começava às sete, no Grupo Escolar "Quintiliano de Azevedo". (Ainda tem criança que reclama se o pai demora um pouco para apanhá-la, de carro, na porta do colégio!). Aí, eu saltava, na estação, e tinha que caminhar um bom pedaço, pela linha, com meu embrulho debaixo do braço. A casa de tia Nica, meu destino, ficava ali, no Zumbi, bem perto de onde construíram o viaduto.

Tenho uma grande frustração: nunca me deixaram pular do trem em movimento...

 

(*) Do livro "Eu e meu umbigo" (adaptado) - 1997

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