Sawabona, shikoba e cancelamento - Jornal Fato
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Sawabona, shikoba e cancelamento

Em tempos de cultura do cancelamento e do deslike, o hábito de uma tribo africana deveria ser copiada


Em tempos de cultura do cancelamento e do deslike, o hábito de uma tribo africana deveria ser copiada. Conta-se que quando alguém comete um erro é levado para dentro da floresta e cercado de parentes e amigos, que durante dois dias se revezam repetindo tudo que ele fez de bom ao longo da vida. Suas qualidades são exaltadas.

Tudo porque os que estão na roda, com o infrator ao centro, acreditam que o ser humano é essencialmente bom, mas que muitas vezes na busca pela felicidade comete erros. Então, na concepção deles, o erro seria um grito de socorro.  E que todo o afeto e apoio contido neste gesto lembraria ao membro errante o quanto ele é bom. Faria com que se reconectasse com o divino.

A palavra dos que estão na roda é sawabona, que quer dizer "eu te respeito e valorizo. Você é importante para mim". Após esse acolhimento e falta de julgamentos impiedosos, o "infrator" recuperado pela força do amor responde shikoba, que significa "então eu existo para você". Isso merece reflexão quando estamos todos na roda. Mas ao invés de palavras doces de afeto, estamos à mercê da fúria de palavras que matam. Mais para roleta russa que outra coisa.

Nada de sawabona ou shikoba, mas atos de vingança e destruição de reputações por erros absurdos, e outros nem tanto assim. Mas o importante é exercer a cultura do cancelamento e jogar por terra a popularidade virtual de quem vive e ama a exposição nas redes sociais. A tribo africana faz tudo que deveríamos fazer. Hoje os erros são considerados irreparáveis e a pessoa é linchada virtualmente até a morte.

A chance do episódio que levou ao apedrejamento dificilmente será reparado e não permitirá nenhuma transformação positiva. Oferecer amor e compreensão a quem erra é para poucos. Não é prática nossa. Mas Cristo já dizia que quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra. Pela avalanche que se vê, tem muito santo por aí, porque chovem pedras de todos os lados.

Então, em tempos de tanto ódio de quem se acha dono do mundo e da verdade, num primeiro momento o desejo é banir essas pessoas do mundo sem dó nem piedade. Com algumas pessoas é mais fácil pensar em cancelamento do que em sawabona. Mas devemos olhar para quem tem muito a nos ensinar.

Madre Teresa de Calcutá dizia que se a gente passar o tempo todo julgando as pessoas, não sobrará tempo para amá-las. E que as pessoas precisam mais de apreciação do que de pão. Façamos a revolução do amor. Lancemos fora as pedras e espalhemos flores e afeto. Fácil não é. Mas quem disse que seria?


Anete Lacerda Jornalista

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