O homem e a borboleta - Jornal Fato
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O homem e a borboleta


Chegou como todos os outros, no escuro. A escuridão nos permite ver melhor. Encontrava-se em um lugar distante de sua moradia, bem no alto do morro. Assustado, sentia-se como um passarinho preso à gaiola. Procura no grande salão um cantinho em frente à janela. Permanece quieto. Da janela assiste a dança das estrelas, que procuram animá-lo à vida, mostrando e ensinando o tamanho do universo. Alegra-se com a dança das estrelas. Alegra-se com sua luminosidade, embora aos seus olhos uma luz ainda opaca. Pedem silêncio. Atende ao pedido e concentra-se. Com essa nova forma de silenciar, a voz do interior passa a incomodar. Incomodado adormece. Acorda com a luz do dia, o sol mostra-se enfraquecido pelas nuvens. Acorda sobressaltado com as vozes da consciência. Incomoda-se com as gravuras da memória. Busca nas lembranças o passado e o presente para modificar o futuro. Coisas boas e ruins se apresentam. Sente-se fragilizado. Pensa em suas necessidades: o que deixou de ter e no que possui, é pouco, não o satisfaz. Permanece o vazio... Gradativamente as vozes dos outros quartos o invade. Invade seus sentidos. Ouvir: permite sentir a beleza da palavra. Aos poucos as vozes da consciência param de incomodar.

A noite retorna de uma maneira diferente, nunca visto. Retorna à sala e ao lugar do dia anterior, em frente à janela, junto às estrelas. De repente, das matas e da natureza amiga, surge um morcego. Não entende o motivo de sua presença. Assim como não entende muitas coisas de sua vida. Em pensamento deixa-se picar, assiste seu sangue ser sugado, é o seu passado sendo sugado pelo animal. Gostaria que fossem assim, as impurezas acumuladas no tempo sugado do seu sangue. O mamífero assusta, mas o faz pensar em caminhos a seguir.

Nasce um novo dia e sente-se diferente. O homem sente-se como a larva de uma borboleta em seu casulo: muita dificuldade para se libertar das membranas que a envolve, mas é o que a fortalece. As dificuldades ajudam no fortalecimento das asas. É o que a manterá viva, é o que permitirá longos vôos. Abre os olhos e uma grande borboleta sobrevoa a sala. Sente-se leve como a borboleta dos campos de sua infância. Aquela que se confundia com as gaiolas de seus passarinhos. Das muitas cores da borboleta o vermelho se sobressai, talvez não seja a cor que se sobressaia e sim a sua preferência. O que importa é a harmonia das cores. Não é a sua cor preferida que importa e sim a harmonia dos tons embelezando sua retina.

Em pouco tempo, ouve cantos. Um canto alegre, distante. O canto vai invadindo seu corpo e mente. Sente um calor na face, de seus olhos escorrem lágrimas. Lágrimas de alegria, alegria de estar ouvindo de novo o canto dos passarinhos de sua infância. O canto fica mais forte. O som se aproxima. Não! Não são os passarinhos de sua infância. São vozes humanas; vozes de homens; homens felizes. Homens que não viu, mas o serviram por três dias. Dias que lhe valeriam por uma eternidade. Eram vozes de homens se misturando ao canto dos passarinhos.   

 

Sergio Damião Santana Moraes

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Sergio Damião Médico e cronista

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