Subi pro céu - Jornal Fato
Artigos

Subi pro céu


Sabe essas manhãs de meio de semana que seguram a gente na cama; aquele friozinho que não quer ir embora? Pois é, dia desses acordei mais tarde, pouco além das nove horas e fui tomar meu cappuccino no Mourads. Cheguei, esparramei o embornal cheio de papéis no balcão do Barbosa, e fiquei esperando que ele me servisse; e ele nada de me atender, atendia, no momento, a D. Eulália, que acho que tem a minha idade. Quando fui "reclamar" com Barbosa, Eulália vira-se pra mim e diz que sempre lê meus escritos aqui desta página. Não me lembrava dela, ela é irmã de Celso Mello, Celso "Leão", que carrega o "sobrenome" porque, um dia, criança, foi brincar com um leão de circo que passava por Cachoeiro e o leão deu-lhe mordida nas costas. Leão sobreviveu até hoje, graças a Deus.

Ia eu começar o diálogo com Eulália, quando me chega ao balcão, às minhas costas, o doutor e amigo Fernando Netto, de velhas histórias e permanente amizade nos últimos 50 anos.

Pra frente como é, logo puxou assunto com Eulália, enchendo-a de perguntas do tempo antigo e ela, pacientemente, respondia a todas... e eu de lado, esperando minha vez de falar - que veio por linhas tortas, como passo a contar (os nomes que cito, daqui pra baixo, são fictícios, não consegui guardar todos aos quais Dr. Fernando se referiu).

A primeira pergunta do Dr. Fernando: - "E o Manoel, Eulália?". Veio a resposta - "Ele morreu há algum tempo, Fernando". Veio a segunda pergunta do Fernando: - "E o João Pedro, Eulália". - Pois é, disse Eulália, ele morreu em Marataízes. Veio a terceira pergunta do Fernando: - "E a Maricota, Eulália, ela está morando onde, hoje?". "Ela morava em Guarapari, e morreu faz três anos, Fernando", responde Eulália.

E veio a quarta pergunta do Fernando - "E Isabel? Tem tempo que não a vejo, uns 10 anos, em acho". Ela morreu, diz Eulália, há uns quinze anos, morreu no Rio. Depois, vieram a quinta, a sexta, a sétima e a oitava perguntas de Fernando à Eulália, todos e todas mortas, confirmava ela.

Quando viria a nona pergunta, não aguentei, me virei para Dr. Fernando e disse: - "Acho bom você parar com essas perguntas, senão vai morrer todo o mundo". Dr. Fernando, com aquela verve que todos seus verdadeiros amigos conhecem, vira pra mim e diz: - "Que que é isso, Dr. Mansur? Tem isso não. Quer ver?" Quis ver, e ele entra com a nona e anteúltima pergunta à Eulália: - "E o Ricardo Chaves, onde ele está, você sabe?". Eulália respondeu na hora, com a presteza com que respondera às últimas oito perguntas do Fernando: - "Ricardo? Ele subiu, Fernando". E Fernando manda a décima pergunta - "Uai, subiu pra onde, Eulália?". E Eulália responde: "Subiu pro Céu Dr. Fernando").

E nada mais foi perguntado, nada mais foi respondido, nada mais foi anotado, exceto os elogios ao cappuccino do Barbosa.

 

Café

Falando em Café, fui alvo de muita galhofa em vista de minha segunda visita ao "Café na Tuia", simpática cafeteria aberta há alguns meses no Bairro Aeroporto, logo depois da Exposição - primeira entrada à direita -, cafeteria de cafés especiais, dirigida pela Bruna (na foto). O motivo da galhofa era a de que eu estaria traindo meu bunker, Café Mourads, que me trouxe e sempre me traz muitas alegrias e prestígio. Vê só!

Cachoeiro tem poucas outras cafeterias como o Mourads e o Café na Tuia, mas não tem tradição de muitas cafeterias, como a têm outras terras, como São Paulo e como a Austrália (madrugada dessas vi um programa de TV numa cafeteria de Melbourne, onde o café quente e de qualidade que era servido era o ... Café da Caparaó).

Ao lado do empreendedorismo desse pessoal - Mourads e Café da Tuia - poderiam os órgãos de governo local incentivar e reunir esse pessoal de tão boa qualidade. Seriam mais empregos, mais impostos, mais cultura, mais turismo e tudo o mais para a terra de Rubem Braga, de Sérgio Sampaio, de Roberto Carlos, de... (paro aqui, reconhecendo: como tem gente boa "nessa terra entre as serras!".

 

O PDU de Adilson Dillen

Um registro que fiz na tribuna da Câmara, enquanto vereador, há mais de 10 anos (agora são 24 anos), e que ficou perdido no livro de atas e o fato de o PDU ter sido pisoteado algumas vezes, desde então, me fazem regredir no tempo para prestar homenagem merecida ao Adilson Dillen, então Secretário de Planejamento da Prefeitura de Cachoeiro.

Eu e mais uns dois vereadores éramos oposição ao governo do Sr. José Tasso. Nem por isso Adilson Dillen deixava de nos dar atenção. Para ele, Adilson, não se tratava de simplesmente empurrar goela abaixo dos vereadores e dos cidadãos um projeto gestado e acabado nas entranhas do executivo, como costuma acontecer, de Brasília ao menor município brasileiro.

Durante meses a fio o projeto do PDU foi discutido em sessões preparatórias. Nessas reuniões ouviram a comunidade, os técnicos e os vereadores e mais quem quisesse ser ouvido, pois as reuniões eram públicas e abertas.

Muitas modificações foram feitas no projeto original, algumas dos vereadores (não importava se de situação ou de oposição), outras de técnicos ou dos movimentos sociais da cidade. Adilson, no âmbito do Poder Executivo, defendeu-as tanto quanto pode e pode quase tudo. O projeto do PDU encaminhado à Câmara Municipal foi praticamente o mesmo discutido com a sociedade. Saiu da Câmara praticamente incólume, eis que havia sido anterior e lealmente discutido também com os vereadores. O projeto não tinha armadilhas; Adilson Dillen não as quis. Não conheço projeto importante passado pelo legislativo cachoeirense, que tenha sido apreciado com rapidez séria e sofrido tão poucas ou nenhuma modificação na tramitação.

O trabalho efetivamente bom no sentido técnico e que soube respeitar os eleitores, não surgiu do nada, teve quem o comandasse e o comandasse muito bem. Daí esse o registro tardio, mas efetivo e sincero: o grande nome do PDU de Cachoeiro Itapemirim é Adilson Dillen dos Santos.

(Crônica publicada aqui, na Conexão, em 05 de novembro de 2004. 14 anos após, reafirmo o que disse e completo: - Não mais se faz Plano Diretor (PDU = PDM) como antigamente. Orgulhe-se disso, Maestro Adilson Dillen dos Santos).

 


Comentários