Humor ou ideologia - Jornal Fato
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Humor ou ideologia


Tenho na minha frente, enquanto escrevo, dois livros vermelhos: "O Livro Vermelho" de Mao Tsé-Tung e "O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr" de Millôr Fernandes, o primeiro de ideologia e o segundo de humor. Advinha qual sobreviveu? Sobreviveu o humor. A ideologia ficou enterrada na areia do tempo, mofada.

Uma das satisfações em fazer esta página é a oportunidade de selecionar frase de livros, jornais ou revistas lidos e relidos. Tem sido a melhor forma de leitura. É quando sinto a qualidade, ou falta dela, nas leituras que fiz, faço e farei; é quando se vê tanta literatura importante um dia e, hoje, pouca coisa se salva ou, ao reverso, e aí está o prazer, quanta pérola se encontrava perdida em letras às quais nem tanta atenção eu prestava.

Os dois livros vermelhos, lado a lado, deram-me oportunidade de respeitar menos as ideologias e crer mais no humor como fator de transformação da humanidade. Castigatridendo mores, ou "rindo castigamos (ou corrigimos) os costumes" é mais importante do que o fanatismo da ideologia. Certo que não devemos afogar definitivamente a ideologia, ela pode ser necessária, mas sem humor não há vida útil sobre a terra.

Fato é que, lendo ambos os livros, colocando-os de ponta cabeça, de Mao Tsé-Tung nada consegui retirar de atual ou fora do lugar comum. Aliás, pensando bem, desse livrinho chinês que já foi famoso, há mais de década não ouço alguém citá-lo, sequer falar sobre ele - não tem para ele o último dos moicanos; todos os índios morreram. Já do livro vermelho de Millôr retirei tantas citações (ver nesta página) e, ainda assim, muitas sobejaram, e do mesmo coturno.

Repito: não estou dizendo que ideologias devam ser abandonadas, mas se boa parte delas, ao nascer, forem direto à lata de lixo, teríamos grande contribuição ao progresso da humanidade. Já o humor, na ausência dele, ai de nós e da civilização.

 

CITAÇÕES DO MILLÔR

Se Moisés acreditasse em plebiscito os judeus até hoje ainda estariam no Egito. /// A pobreza não é, necessariamente, vergonhosa. Há muito pobre sem vergonha. ///Um incorruptível não tem o menor valor para um corruptor. /// A cultura é um acervo muito relativo e, individualmente, para você parecer culto, basta apenas ficar bem atento ao que o interlocutor ignora. /// Não se pode deixar de ter saudades dos tempos mais tranquilos, tempos em que a humanidade era mais pura e inocente, como em Sodoma e Gomorra. /// A mais calma das pessoas fica furiosa se você, no meio da mais tranquila discussão, lhe diz que não pode discutir com ela porque ela é facilmente irritável. ///À proporção que o sistema vai fechando seus tentáculos kafkianos sobre o indivíduo, até o filhinho deixa de ser olhado como um ser amado e passa a ser encarado apenas como mais uma isenção do imposto de renda. /// Mais cedo ou mais tarde as pessoas justas e honestas receberão o devido castigo. /// Com taxas e mais taxas, arbitrárias e crescentes, aplicadas com impiedade e violência sobre todos os contribuintes, ninguém sabe mais separar o que é imposto do que é confisco de bens. /// Quem se curva aos opressores acaba sempre mostrando o rabo aos oprimidos. /// Os poderosos podem não aumentar a própria estatura mas lhes é muito fácil rebaixar o teto. /// Stálin, Hitler, Salazar, tiranos, donos de países e ideologias completamente diferentes e opostas. Mas o tipo de Inquisição que criaram é absolutamente igual///. Desconfio por princípio daqueles que lucram com seu ideal. /// A mística da obediência cega e irrefletida seria ridícula se não fosse sinistra. /// O cara que jogou a bomba em Hiroshima também dizia que estava cumprindo ordens. /// Os que acham que não têm força, os que pensam que não têm meios, devem lembrar-se de que Cristo começou com uma cruz só. /// Quando os homens do futuro pararem diante de nossas cidades, bastará olhá-las para murmurarem cheios de espanto: "Mas, eram todos canalhas?".

(Citações retiradas de "O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr", de Millôr Fernandes. De "O Livro Vermelho" de Mao Tsé-Tung, com algumas frases que cheiravam a mofo, não vi porque transcrevê-las: Não têm graça nenhuma).

 

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