Entrevista

Da boleia do caminhão ao comando do Hifa

Winston Roberto conta sua história, a evolução do hospital e do déficit atual


Foto: Wallace Hull

 

O presidente do Hospital Infantil "Francisco de Assis" (Hifa), Winston Roberto está no cargo há 11 anos de forma voluntária e, nesta trajetória, junto a sua equipe técnica e conselho administrativo e fiscal, conseguiu transformar a unidade de saúde especializada no atendimento de crianças de 0 a 12 anos, em referência na região Sul do Espírito Santo.

 

Natural de Muqui, hoje ele é figura conhecida da sociedade cachoeirense, cidade que reside desde os três anos e é respeitado por sua postura profissional, pautada pela ética e firmeza de decisões.

 

Hoje, além do Hifa, o grupo faz a gestão de mais três unidades hospitalares, sendo elas em Guarapari, Vargem Alta e Atílio Vivacqua e ainda oferece serviços de laboratório e medicina do trabalho para as redes do SUS e empresas privadas. Nesta entrevista, Winston fala sobre sua história pessoal, como empresário e, claro, das causas do atual momento vivido pelo Hifa.

 

Primeiramente gostaria que falasse sobre a sua história, como empresário.

 

Comecei a trabalhar aos 17 anos com meu pai no posto de combustível da família. Aos 21, criei esta empresa (Winston Transportes) que dirijo há 52 anos. Foi uma empresa criada contra a vontade do meu pai, porque ele não queria que eu mexesse com caminhão, muito menos que eu dirigisse, mas insisti. Os primeiros três anos de existência da empresa era eu quem dirigia até pagar o primeiro caminhão. Eu trabalhava pro meu pai transportando gasolina. Então, depois de três anos, quando paguei o caminhão, comprei o segundo veículo para fazer a linha de São Matheus, onde também tínhamos posto, coloquei motorista nos dois caminhões e não mais fui para a estrada.Quando iniciei o trabalho, ainda estava terminando o científico no Liceu.Concluí o curso e, depois, quando já estava com minha empresa, tinha tempo ocioso à noite.Então,fiz contabilidade na Escola de Comércio. Não tenho curso superior.Na minha época, não existia faculdade em Cachoeiro e meu pai já mantinha dois filhos estudando fora. Eu era uma força de trabalho pra ele. Se eu fosse, seria um peso a mais e menos uma força de trabalho. Então optei por não ir e seguir nessa linha do transporte. Confesso que não me arrependi. A vida inteira foi de lutas, o que sempre soube fazer foi trabalhar e faço isso até hoje. Atualmente, vejo que valeu a pena. Tenho minha família bem constituída e encaminhada e minha empresa que tem média de 150 colaboradores.

 

 

Como foi sua chegada ao Hifa?

 

Costumo dizer que caí na diretoria do Hifa de paraquedas. Há 11 anos o presidente era o Atílio Traváglia, que também ocupava o cargo de vice-prefeito. Eu o conheço desde criança.Nosso posto ficava do lado da casa deles, e, aí, ele me convidou a fazer parte do conselho. Disse a ele que não sabia o que poderia acrescentar no hospital, uma vez que não sou da área da saúde e não tenho ligação com políticos. Ele me disse que eu poderia dar opiniões, que era uma reunião só por mês. Com muita insistência eu fui e, na primeira vez - nunca nem tinha entrado no hospital- estava lá a ficha de inscrição pra eu assinar como vice-presidente do Hifa.Tomei um susto. Então ele disse para eu não me preocupar, que ele estava à frente e tal.Um mês depois ele saiu e levou consigo 80% do conselho, pois eram todos ligados à área dele, do setor de rochas. Acabei ficando "órfão" lá. Na hora falei que não tinha perfil para presidente. Aí o JailtonPedroso (Superintendente) me disse para ficar, porque tinha que assinar a documentação e eles arrumariam outro para o cargo. Ele havia entrado lá pouco tempo antes também, trazido também pelo Atílio.

 

E como foi este começo de trabalho?

 

Passado um mês como presidente, decidi conhecer o hospital todo, afinal, se eu era o presidente, precisava ter conhecimento daquilo que iria gerir. Eu fiquei chocado com a carência do hospital, que era muito grande. Estava praticamente deteriorado vindo há seis anos de administração da prefeitura. Na época, o pessoal do Centro EspíritaJeronymo Ribeiro (fundadores do hospital) tinha doado a administração para a prefeitura, pois não tinha mais condição financeira de manter e iriam fechar. O Ferraço (Theodorico Ferraço, prefeito de Cachoeiro na época)disse para não fechar e assim eles "venderam" o hospital simbolicamente por R$1,00 para que a prefeitura assumisse a gestão. A negociação envolveu a sede e os 42 lotes do bairro Aquidaban, onde fica a obra do hospital, que agora será gerido por nós. As enfermarias eram horríveis, os acompanhantes ficavam em cadeiras de plástico ao lado do paciente. A UTI tinha quatro leitos com equipamentos ultrapassados. Quando o conselho saiu quase todo, comecei a convidar pessoas do meu meio. E isso foi muito bom, pois hoje o conselho ajuda bastante, é muito influente. Partimos para a luta. Nos reunimos e reformamos totalmente, às nossas custas, a primeira enfermaria, que estava muito ruim. Não tinha gerador.Quando faltava energia era um caos. Fomos para a cidade arranjar recursos. Lembro que o compressor de ar, que mantém a UTI, pifou. Fomos pra rua... pro comércio. No mesmo dia, levantamos cerca de R$60 mil e compramos o compressor. Saímos de manhã e ao meio dia estávamos com o dinheiro. E fomos trabalhando. Procuramos a Secretaria Estadual de Saúde pra angariar recursos, mas lá, o Estado disse que não poderia investir porque o hospital era municipal e quem tinha que investir aqui era o município. Então buscamos o prefeito, na época o Roberto Valadão, para ele nos devolver o hospital.Ele disse que não poderia.Quem tinha que fazer isso era a Câmara. Enviamos o projeto à Câmara, que foi aprovado na primeira sessão e com 30 dias estava tudo registrado como instituição filantrópica. Voltamos aos Estado e conseguimos o convênio.

 

Mas os recursos seriam suficientes?

 

Até então, o hospital estava trabalhando apenas com a tabela do SUS e o sistema paga apenas 50% do custo. A dúvida era como conseguir os outros 50%. Tinha que fazer convênio com alguém e esse alguém era o Estado para ele complementar a tabela do SUS e na sequência fomos aumentando a oferta. A UTI passou de quatro para seis leitos. Devolvemos o equipamento antigo todo para o fornecedor e pegamos seis novos. De seis, as vagas passaram para 12, depois 18, 20 e hoje tem 30 e a demanda é total. Quase sempre 100% de ocupação. Depois que a instituição passou às nossas mãos, ficamos liberados para conseguir recursos federais. Fizemos um trabalho forte com os parlamentares estaduais e federais, conseguimos muita ajuda.

 

Que tipo de ajuda seria essa?

 

São as emendas parlamentares. Porém elas não contemplam custeio e sim compra de equipamentos. Então se consegue o equipamento, mas tem que fazer uma obra para instalar, tem a manutenção, e isso o recurso não contempla. Mas depois que o equipamento está funcionando, ele gera receita para o hospital. Era esse nosso objetivo.

 

Mas a busca por recursos foi além da verba pública?

 

Nós investimos muito no laboratório.O trabalho foi tão bem feito que ele acabou superdimensionado para as necessidades somente do Hifa e por isso fomos buscar o mercado. Fizemos convênio com a prefeitura, com hospitais particulares, implantamos a medicina do trabalho e aí fomos expandindo. Depois fizemos convênio com a prefeitura para gestão do PAI. A atenção básica constitucionalmente é uma obrigação do município. O estado só atende urgência e emergência. Como nós terceiramos da prefeitura, inicialmente o atendimento era no prédio localizado na Rua Pinheiro Junior, que também foi comprada pelo hospital. Funcionou bem durante uns cinco anos, mas se fosse urgência e emergência era deslocada para o Pronto Socorro do Hospital, aí a ambulância ficava o dia inteiro pra lá e pra cá. Depois conseguimos o contrato com o campo do Estrela (time de futebol) e passamos o PS para mais perto. Se precisasse, era só subir com a criança pro hospital.

 

Sobre a prestação de contas de 2016. O que causou o déficit de R$4 milhões?

 

Nestes 11 anos de administração, o hospital sempre foi deficitário operacionalmente. Isso quer dizer que o serviço prestado para o Município e o Estado via SUS, tem um custo maior do que o meu faturamento. Então a gente tem sempre que complementar a receita. Neste período, durante os seis primeiros anos ele foi deficitário. O caixa era complementado com verbas não reembolsáveis, que são as verbas parlamentares. E aí fomos trabalhando para ir diminuindo o déficit, até que de cinco anos pra cá passamos a ser superavitários. E vínhamos mantendo. Todo início de ano é o período de renovação com o Estado, em janeiro de 2015 estava previsto uma correção do valor. Ao invés de corrigir, o governo do Estado depreciou em 20% o valor da tabela do convênio. Segundo ele a justificativa era equilibrar as contas públicas. Em 2016, teria que corrigir, e isso não feito até hoje. Estamos trabalhando com a tabela de preços de 2014. Aliado a isso, tem a falta de pontualidade dos pagamentos. Tenho que receber até o dia 10 de cada mês, o mês em curso. Eles estão pagando com três ou quatro meses de atraso. Com isso eu não posso deixar meus funcionários neste período sem receber. Não posso deixar de pagar fornecedores, impostos. Então o que eu faço? Recorro ao banco. E isso me cria uma despesa adicional que não está contemplado na planilha, que são custos financeiros com juros dos empréstimos. Quem atrasa o pagamento não paga essa correção, mas eu tenho que pagar juros. O motivo do nosso déficit operacional foi justamente esse. Além da falta de correção da tabela, da falta de pontualidade dos pagamentos, que gera custo financeiro, tivemos a perda de recursos substanciais do estacionamento rotativo. Esta soma de fatores nos levou a esse déficit.

 

Isto é um sinal de alerta para o Hifa?

 

Sim. É preciso que haja a retomada da economia. Com isso o desemprego diminui e as pessoas passam a ter plano de saúde. O estado recebe mais impostos e consequentemente pode repassar melhor os recursos. Tudo está preso no momento econômico que estamos vivendo.

 

O que tem sido feito para reverter este quadro?

 

Nós temos feito contato com os deputados com frequência e falando com o Governo do Estado. Tivemos grande dificuldade para estabelecer este contato com o governador. Entendemos que o que estão fazendo conosco é uma transferência de responsabilidade. Não podemos deixar os pacientes sem atendimento. Mas as conversas estão avançando. Esperamos que nossos apelos sejam ouvidos e possamos continuar prestando serviço de qualidade à toda população.

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