Entrevista

As visões de um conservador

Professor se destaca nas redes sociais pela defesa das ideias conservadoras na Região Sul e Serrana do Estado


Foto: Rael Sérgio

Por Rael Sérgio

 

Há pouco menos de um ano, em 22 de dezembro, uma pesquisa do Ibope constatava o crescimento do conservadorismo no país. Segundo o levantamento, 54% dos brasileiros atingiram alto grau de pensamento conservador em questões sociais como a legalização do aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, pena de morte, prisão perpétua e redução da maioridade penal.

 

Para chegar ao resultado, o Ibope fez perguntas polêmicas à população sobre esses assuntos em 2010 e, também, seis anos depois. No período, houve aumento de conservadorismo entre todas as faixas etárias e todos os graus de renda, em ambos os sexos, em todos os níveis educacionais e em todas as religiões.

 

Nesse time está o professor e servidor do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, Wellington Callegari, que usa as redes sociais para propagar suas ideias. Callegari defende a "valorização da pessoa humana como tal", livre de "adereços ideológicos e invenções bizarras a seu respeito" e que só pode ser entendido em seu "campo social próprio, formado pela família, religião, moral, etc". Tudo aquilo que, segundo ele, é perseguido no mundo de hoje.

 

O que seria conservadorismo?

 

Nada mais do que um olhar de incredulidade sobre toda essa mescla de ideologias que tentam nos impingir, como socialismo, liberalismo, feminismo, politicamente correto, etc. Tudo isso tem o seu valor, mas nenhuma teoria, sozinha, é capaz de resolver todos os problemas da sociedade. É o desejo de sair dos "modismos" e voltarmos a tentar entender a realidade como ela é de fato. E nisso, é fundamental o respeito às nossas tradições, que são a soma de conhecimento acumulado de nossos ancestrais, e que no Brasil de hoje insiste-se em dizer que está "obsoleto". Tudo bem. Que esteja. Mas então, que me mostrem o que todas essas novidades, especialmente na educação e moral, nos trouxeram de melhor. O conservador é como aquele cara que depois de amadurecer, diz "meus pais é que estavam certos".

 

Em seus vídeos e palestras, o senhor diz que a delinquência juvenil é um dos grandes problemas do país. O que o senhor pensa sobre a redução da maioridade penal? E o Estatuto da Criança e do Adolescente?

 

Sou totalmente a favor à redução da maioridade para crimes violentos. Para delinquências menos graves, como o furto, acredito que podemos, sim, fazer um trabalho de resgate, pois tratam-se, muitas vezes, de jovens sem orientação familiar ou perspectiva. Agora, quando se fala de estupro, assassinato, sequestro e outros, estamos diante de um quadro de perversidade humana de difícil reversão, em que a segurança da sociedade e a justiça requerem punição mais grave. Se tem idade para estuprar, tem que ter idade para cumprir todo o rigor da pena, mesmo que inicialmente em espaço reservado. Quanto ao estatuto, apesar de algumas medidas boas, mas pouco efetivas em prol das crianças, considero no geral, uma grande porcaria. Fui servidor da Vara da Infância e Juventude de Cachoeiro de Itapemirim. Certa vez, constava entre os objetos apreendidos pela polícia em uma boca de fumo pertenciam a um menor, um exemplar do ECA. Esse é o resultado do Estatuto. Ao encher a criança de "direitos" desacompanhados de deveres e ao desmoralizar o papel dos pais como autoridade, criou um gigantesco "exército" de delinquentes impunes, cuja ferocidade é maior do que as dos maiores de idade.

 

E quanto a segurança pública de modo geral?

 

Está inserida no mesmo problema. Veja bem. O que nos impede de cometer crimes? Controles internos, que são nossos valores e crenças, e controles externos, que são a retaliação que receberemos se cometermos ou tentarmos cometer esses crimes. No Brasil e no Espírito Santo de hoje, estamos no pior dos mundos, pois de um lado houve nas últimas décadas um implacável processo de destruição da família, da religião e dos valores morais, em nome de um discurso politicamente correto e moralmente relativista que subverteu o controle interno de muitos, enquanto de outro, após a Constituição de 88, assistimos ao reino do "tudo pode", em que qualquer forma de autoridade é vista como "autoritarismo" e em que a "ressocialização" do criminoso se tornou mais importante que a justiça e a segurança. O resultado está aí: quase 70 mil mortos por ano pela violência. Uma guerra civil.

 

Com relação a esses "controles externos" de que fala, é óbvio que defende mudanças na lei penal, como já disse. Mas com relação aos problemas da religião e da família, o que você defende para o resgate dos valores e da ordem?

 

Em primeiro lugar, como conservador que sou, não acredito que o estado possa simplesmente substituir a família, a igreja e outras instituições importantes. Isso seria utópico e totalitário. Mas o poder público também não pode se ausentar por inteiro da desastrosa situação em que nos encontramos, até porque a Constituição atribui ao estado o dever de prover educação. Nesse sentido, saúdo como excelente a ideia da militarização de escolas, como já vêm ocorrendo em outros estados. Não significa, como alguns pensam, tirar o professor do processo. Pelo contrário, significa permitir ao professor que foque naquilo que interessa que é o ensino, deixando a disciplina à cargo dos militares. O que não pode é professores continuarem a ser intimidados e até agredidos em sala, como acontece em várias escolas.

 

Seria uma forma de melhorar a segurança do ambiente escolar?

 

Não só isso. Acredito que atualmente, as instituições militares são umas das poucas que conservam aqueles valores de que falávamos antes. Honra, coragem, disciplina, senso do dever e de obediência, iniciativa, etc. O esporte e as igrejas também possuem muito disso, mas os militares ainda possuem a vantagem de saber lidar com a delinquência onde ela aparece, e ela aparece com frequência em nosso ambiente escolar.

 

Em todo o Brasil?

 

Não. Apenas nas escolas com sérios problemas de ensino, de segurança, ou com o Ideb muito baixo. É também preciso manter a pluralidade de sistemas educacionais. Eu mesmo dou aula em uma escola católica. Em time que está ganhando não se mexe.

 

O que seria o grupo "Pátria, Ordem e Liberdade"?

 

Apenas um grupo de pessoas de bem, de variadas tendências, que cansou de ver aquilo em que acreditam, e que a maior parte do povo também acredita, ser ignorado e desprezado por nossa elite política e midiática e que está se articulando para ser ouvida.

 

Possui planos políticos?

 

Políticos sem dúvida, pois querendo ou não, infelizmente tudo passa pelo debate político. Mas não apenas isso. Também existe o campo da educação e cultura. Agora, se você se refere a eleições, ainda é muito cedo para se falar disso e o grupo está apenas no começo, embora crescendo.

 

Você tem usado as redes sociais para difundir suas ideias, inclusive através de vídeos. Considera que a internet é o grande campo de batalhas da atualidade?

 

 Cultural e politicamente, não tenho dúvidas. Na verdade, graças à rede, finalmente as pessoas "comuns" passaram a também gerar conteúdo, bom ou ruim. Antes, na era da TV, éramos consumidores passivos de qualquer coisa que a TV nos impingia. Daí a falsa sensação de

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