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Se nossa inteligência fosse avaliada pelo sistema métrico decimal, posso garantir que a de Tio Dedé não chegaria à casa dos dez centímetros


Se nossa inteligência fosse avaliada pelo sistema métrico decimal, posso garantir que a de Tio Dedé não chegaria à casa dos dez centímetros. É verdade que, às vezes, ela estica que nem borracha, chegando a medir quase um metro e meio. Mas isso é muito raro. Por esse método, a inteligência de um gênio mediria, digamos, dois metros; a de um indivíduo considerado inteligente chegaria, no máximo, a medir um metro. Uma pessoa normal teria, aí, uns setenta centímetros de inteligência.

De acordo com a ideia maluca do Tio Dedé, só os vereadores poderiam resolver o grave problema da educação neste país. A sugestão que ele pretende encaminhar ao presidente da República é muito simples. Passaria a existir, no Brasil, quatro espécies distintas de vereadores: os vereadores municipais, que são os já existentes; os vereadores estaduais, que são os atuais deputados estaduais; os vereadores federais, que são os atuais deputados federais; e os vereadores de elite, que são os senadores.

Fiquei abestalhado com a fórmula que ele criou: em cada Câmara Municipal haveria, no máximo, 7 vereadores, inclusive nas capitais. Não poderia passar de 15 o número de vereadores estaduais. Em vez de 513, haveria, em Brasília, 52 vereadores federais, ou seja, dois representantes para cada Estado da federação. O Senado seria extinto. E a democracia, segundo ele, continuaria de pé. Na opinião dele, "Vereador de elite só deve existir em país rico."

Quando digo que a inteligência do Tio Dedé, hoje, não chega a dez centímetros, não é à toa. Ele pensa assim: "Vereador não é profissão. Cada um deve ter seu meio de vida. Ninguém é obrigado a ser candidato. Só entra na política quem quer. Então, vai ter que se submeter à seguinte regra: ajuda de custo de vereador estadual: um salário mínimo, com direito a andar de graça nos ônibus intermunicipais, nos dias de sessão; ajuda de custo de vereador federal: dois salários mínimos, com direito a andar de graça nos aviões de carreira, também nos dias de reunião. Nada de mordomia paga pela mãe-gentil: apartamento funcional, casa com piscina, carro oficial com motorista, franquia, diária, jeton... Nada disso. Vereador municipal não teria nenhuma remuneração, mas, em compensação, receberia credencial para andar de graça nos ônibus municipais, também nos dias de sessão."

Com seus dez centímetros de inteligência, Tio Dedé garante que vai sobrar muito dinheiro, por isso o angustiante problema da educação, no Brasil, estará definitivamente resolvido. Aposta que o professor, mais qualificado e mais valorizado, vai ganhar um salário decente e vai reconquistar o seu lugar no espaço. E voltar a ter a mesma remuneração de um promotor de Justiça. Como era no seu tempo.

Ah! Eu disse dez centímetros? Acho que me enganei. Com esses delírios, a inteligência de Tio Dedé não passou de um centímetro.

 

Do livro "Peripécias do Tio Dedé" (adaptado), p. 29 - 2009)

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