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Bernardo


Fernando Pessoa, poeta português, em vida, publicou um único livro em nossa língua: "Mensagem." Suficiente para descrever e enaltecer língua e feitos portugueses. A devida sintonia entre povo e mar: "Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!/ Por te cruzarmos, quantas mães choraram,/ Quantos filhos em vão rezaram!/ Quantas noivas ficaram por casar/ Para que fosses nosso, ó mar!/ Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena./ Quem quer passar além do Bojador/ Tem que passar além da dor./ Deus ao mar o perigo e o abismo deu./ Mas nele é que se espelhou o céu."

Era um sábado, 17 de março, um mês após o nascimento do meu neto Bernardo. Encontrava-me em Itapoã, Vila Velha, pela manhã, em frente ao mar. O mesmo mar de Pessoa. O mesmo Oceano. o Atlântico que os portugueses desbravaram com tanta coragem e determinação. O dia estava claro, mas nuvens escuras ameaçavam desabar em fortes chuvas e relâmpagos. Lia os versos e procurava lembrar o momento, mês antes, em que ele nascera. Bernardo veio ao mundo em 17 de fevereiro, dia de Santo Aleixo. Aleixo nasceu em 1200, em Florença, Itália. Filho de Bernardo Falconieri, príncipe mercante florentino e um dos líderes da República. Aleixo era nobre e rico. Mas a piedade era sua maior virtude. Devoto da Virgem Maria. Com alguns amigos fundou a Ordem dos Servidores de Nossa Senhora, ou Servitas. Morreu com 110 anos, em 17 de fevereiro de 1310. Bernardo, nome Germânico. Significa: forte como um urso. Caridade e bondade foram consolidadas pelos trabalhos do abade Francês, na Ordem Religiosa nos Cuidados de Asilos, na região dos Alpes Suíços, tornando-se São Bernardo de Claraval. Foi Doutor da Igreja Católica, na Idade Média.

Enquanto observava o mar, lia a poesia e tomava conhecimento das histórias e significados do nome do meu neto, pensei nas coincidências da vida. As coisas se repetindo no tempo, lugares e nos nomes. Meu neto nasceu em 17 de fevereiro, 700 anos depois da morte de Santo Aleixo. Aleixo era filho de Bernardo, o príncipe. Bernardo, meu neto, nasceu luso-brasileiro. A mãe, Carina, tem ascendência portuguesa. Santo Antônio, da cidade italiana, Pádua, santo casamenteiro, era português, e chamava-se Fernando. Santo Antônio é o nome do bairro onde nasci e cresci. Nas boas coincidências, um bom presságio de vida longa, e virtuosa, para o meu neto. Afastava, temporariamente, os temores da minha mente. Os receios de vê-lo em sociedade tão violenta. Um país tão desigual, uma violência que ceifa 60.000 vidas anuais, uma guerra social sangrenta. Um país belo. Mas...

Um neto é uma preocupação diferente. Não envolve o cuidado de alimentar, higiene ou educação básica. Não nos sentimos responsáveis diretamente. Vivemos os melhores momentos. Conhecemos o momento certo de atuar. Sentimos-nos atores em nosso melhor desempenho. No momento que descansamos da necessidade de produzir. Como se vivêssemos o fim de uma peça teatral de sucesso. Logo, voltamos à realidade. O que resta é um Brasil desanimador. Oscila a esperança e temor. Voltei aos versos de Pessoa, vi os bravos portugueses.  Desbravadores de mares. Lembrei que meu neto Bernardo é luso-brasileiro, nasceu para ser cidadão do mundo. Livre para mares serenos e bravios.

 

Sergio Damião Santana Moraes

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Dayane Hemerly Repórter Jornal Fato

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