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Andarilho

Caminham pelos cantos das estradas, pelo acostamento de uma Br, em estrada sem acostamento e por muitas outras estradas


Caminham pelos cantos das estradas, pelo acostamento de uma Br, em estrada sem acostamento e por muitas outras estradas. Caminham... Não existe destino. Não existe início ou fim. Impossível saber seu rumo. Um vazio na mente, apenas os músculos como impulsores. Esses são os verdadeiros andarilhos. Voltei a observá-los. Da janela do carro seguia seus passos, invejava a liberdade. Livre das escolhas. Logo a realidade da imagem se sobressai. São cabelos alvoroçados, uma longa barba, roupas rotas e pele recoberta de terra, lembram um mendigo do centro de uma cidade grande. Nada pedem, nem mesmo alimentos, são em sua maioria doentes mentais - alienados. Vivem sujeitos a toda má sorte, doenças e vulneráveis as agressões.

No momento em que me encontrava, e se encontra nosso país, todos nós estamos vulneráveis. Reféns da violência, de políticos corruptos, de bloqueios de estradas por caminhoneiros e outros pessoas, da falta de comando dos nossos governantes, da ação de nossos policiais... Isto é, vulneráveis tanto quanto os nossos andarilhos de mentes vazias. Enquanto admirava as árvores à minha frente, pensava nas estradas e lugares por onde passei nos últimos dias. Viajei em ônibus com muitos brasileiros por Portugal e Espanha, tínhamos a opção do trem, navios, avião. Estradas limpas, fluxo adequado e seguras. Sem prejudicar as outras opções de transportes de cargas e passageiros. Algo lógico. Um bloqueio na entrada da minha cidade, na entrada de Cachoeiro, por pessoas desconhecidas, impediram os meus pensamentos. Perguntavam o que fazia e para onde ia. Isolado no vazio da nossa Br justificava minhas idas e vindas. Meu direito de transitar por ruas e estradas foi cerceado em meu próprio país. Triste, muito triste.

Sergio Fava, psiquiatra cachoeirense, fotografou andarilhos de Vitória até Bom Jesus do Norte. Ele me disse: "A liberdade é a cura para todos nós." Na ocasião encontrei em leito de hospital um homem que se apresentava esfarrapado. Logo houve a confirmação: tratava-se de um andarilho. Suas condições físicas não eram das melhores. Um Acidente Vascular Cerebral (Derrame cerebral) deixou-o sem voz e a força de um dos lados do corpo, além da perda da função dos rins. Uma irmã assume seus cuidados, para tanto constrói pequeno cômodo em sua residência. Pronto, estava sendo cuidado, cercado de atenções, não se encontrava mais sozinho. Ainda no hospital, apesar de não falar, não movimentar um dos lados do corpo, parecia tudo entender e dava sinais de melhoras clínicas. Ficava a impressão de estar agradecido, embora permanecesse um ar de tristeza. O que se passava em sua mente? Certamente a saudade da estrada, da liberdade de caminhar, a saudade dos caminhões, dos pássaros. Ou, simplesmente, voltara à realidade da vida humana - realidade da prisão ao leito. Procurava entender seu desejo. Não havia resposta. Tempos depois, soube de sua morte. A irmã informou que em seus últimos dias recusava alimentação e água, "morreu como um passarinho". Ela contou em seguida: "Em seu último suspiro eu vi um sorriso, parecia flutuar sobre uma linda estrada iluminada. Ele seguia em frente como um desbravador de tempos nublados, e tristes, dos nossos dias."

 

Sergio Damião Santana Morares

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