Conhece a ti mesmo - Jornal Fato
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Conhece a ti mesmo


Estou de luto pelo Brasil. Entre tantos outros que me ferem a alma, a atual situação política do país é motivo de sobra para abandonar ilusões. É por isso que mais um dos textos da filósofa e professora Marcia Tiburi chamou-me a atenção.

A autora destaca que quando se diz que o conhecimento faz sofrer, chega-se ao ponto de não poder imaginar alguém ligado à filosofia ou literatura como quem seja capaz de se divertir como um folião comum, ou que se permita horas de lazer numa piscina, por exemplo.

Aos filósofos e escritores, portanto, estariam reservados o sofrimento e a dor, mito que Tiburi faz questão de derrubar com argumentos sólidos e sóbrios. Ela argumenta que mesmo que os filósofos conheçam a alma humana em sua profundidade, o que não acontece com as demais pessoas (nós, os pobres mortais), isso não quer dizer que aqueles conheçam a alma, nem que haja nela uma profundidade inacessível, mas que isso seria apenas possível.

Então desculpas pelo que pode parecer raso nas minhas palavras, mas que foi muito bem definido pela autora quando afirma que tornou-se comum dizer que o conhecimento faz sofrer, e que isso poderia até ser verdade. Digo que às vezes seria preferível ignorar bastidores. O desconhecimento evitaria a fadiga, certamente.

Tiburi ressalta que "tanto quanto pode ser verdade, pensar pode ser um prazer imenso". A premissa para tal afirmativa é de que a pessoa que tira um tempo para se conhecer e ao mundo desfrutará do prazer e desprazer da viagem.

Na abordagem, a filósofa lembra os gregos e a ideia do phármakon, remédio e veneno, simultâneos. Seriam as contradições, que poderiam ser aplicadas ao conhecimento. Se nos faz sofrer, também pode proporcionar alegrias.

O que fazer então para tirar mais alegrias que sofrimentos do conhecimento? A receita seria fazer o "Jogo do Contente", da Pollyanna Menina (Sara Passabom e a personificação inesquecível veem à memória), a otimista incurável personagem de Eleanor Porter, que prefere a felicidade à tristeza?

Marcia Tiburi lança mão também do termo melancolia e lembra Aristóteles e Hipócrates, para quem esse sentimento explicava a inclinação intelectual e elucidava o pêndulo entre a loucura e a genialidade. E aí ela chega num ponto ainda mais interessante. A de que a melancolia antiga é ancestral direta da nossa depressão.

"O excesso de depressão nos dias de hoje não deixa de ter relação com a sociedade do conhecimento e da informação em que vivemos... o conhecimento como potencial de saída da infelicidade, mesmo que tenha nascido dela. Se alguém busca conhecer a si é porque deve pretender com isso ser feliz. Ser feliz é mais ético e mais bonito do que apenas buscar a si mesmo como uma verdade absoluta. Sobre esta verdade de si ninguém tem garantia. A verdade não deve ser uma ilusão da resposta, mas a busca". Remédio ou veneno?

 

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